quinta-feira, 12 de junho de 2014

Dissolução

 Vivendo num mundo onde o medo já se tornou trivial. Onde se banalizou tudo o que já foi segredo e que chocou um dia. Vivendo o paradoxal. Vivendo todas as possibilidades de frustrações e de dores. Vivendo a eterna divisão inexata. Os mais variados dissabores. Vivendo toda a agonia da ganância pela prata. E vivendo sem controle também a raiva gerada por todas as coisas supracitadas. Vivendo as alucinações.
Vivendo a nudez da alma pela ausência do sonho. Pior, vivendo a possibilidade de imaginá-lo com toda a força, mas, em contrapartida, com a força maior de freá-lo usando todos os cavalos de potência de sua consciência. Vivendo a diluição do meio, a mutilação das faunas e das floras, de todos as prendas naturais. Vivendo sem esteio. Vivendo a poluição sonora, que tanto se ignora. A poluição do ar... Inflando os pulmões apenas por necessitar.
Vivendo a inércia pela impossibilidade de caminhar livre. A imobilidade imposta pelos novos tempos, pela dinâmica que move a humanidade rumo ao caos. Vivendo o declive. Vivendo a impunidade, a mudez da oralidade, a crueldade dos maus. Vivendo as calamidades, os declínios abissais da pirâmide dita social. Vivendo o ápice da involução animal. Daquele tido como soberano anteriormente. Vivendo o peso de ser consciente.
Vivendo a vida sem agradecer o grande dom de viver. Sem apreciar a grandeza do micro voo da borboleta. Vivendo a captura das horas. As mesmas que escravizam, que resumem a existência às simples prisões subjetivas das demoras. Vivendo um grande circo onde os palhaços são maus e não divertem, hipnotizam e, depois, põem fogo na lona e cruzam os braços sem medo do que virá à tona.
Vivendo sem viver. Vivendo a alienação por imposição ou acomodação! Vivendo o descaso. Vivendo o freio do atraso... Vivendo numa encenação, por falta de opção. Por ser um ser dotado de vida, por oposição à morte... Por teimar e assanhar a própria sorte. Vivendo a inversão de valores, a insipiência da justiça, as leis ardendo em bolores. Vivendo a afundar, a ter a vida imersa na areia movediça. Vivendo com pressa. Vivendo à beça esse pseudo viver bem profundo. Vivendo o que se é dado a ter. Vivendo, enfim, neste mundo.

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