quarta-feira, 11 de junho de 2014

Como Pedra Furta-Cor



É do ser humano o estado de ser emocionalmente ímpar e ao mesmo tempo plural. O ser humano é assim como uma pedra furta-cor. Se algo lhe impressiona positivamente, sua cor pode ser verde, tranquila... ou vermelha, bem quente. Pode ainda ser branca, pacífica, tal como certas pedras, que pela influência da luz, não têm cor definida. E nesse "lusco-fusco" o homem se faz arco-íris. Um arco-íris de sentimentos e sensações.

Dizer que alguém é mau ou bom, triste ou alegre, zangado ou calmo (salvo casos particulares), pode ser um grande equívoco, já que o ser humano, em geral, tem a característica de mudar, de se influenciar pelas situações do dia a dia, tendo, assim, manifestações diversas. O que faz dele uma verdadeira pedra furta-cor.

Aprendi com experiências próprias ou mesmo através de observações ou de relatos que o ser humano tem sempre os dois lados: o mau e o bom. Que uma pessoa aparentemente ruim guarda dentro de si, muitas vezes, bondade maior do que aquela que exala benevolência em seu semblante. Essa descoberta me levou a ter tanto agradáveis surpresas como grandes decepções.

Com essa experiência na bagagem, agora, consigo perdoar com mais facilidade certas atitudes, bem como ver alguém além da imagem que revela, por exemplo, com suas expressões faciais ou seus trejeitos, ou mesmo com alguns gestos com os quais antes eu costumava "constatar" que uma pessoa era "chata" ou "legal".

Então, volto ao passado e lembro-me de algumas professoras colegas de trabalho mais velhas, portanto, já meio rabugentas, das quais sempre me aproximava até mais do que das professoras de minha idade, meio a título de estabelecer a política da boa vizinhança, por assim dizer. E me percebo um tanto saudosa daquelas, vendo, agora, em suas atitudes anteriores uma boa dose de cuidado maternal, o que seguramente, envolviam conselhos, sermões e críticas.

Percebo nessas lembranças os bons momentos que com tais colegas tive e revejo cenas que comportam gargalhadas, troca de experiências e amizade. Por que não dizer amizade? Logo me reporto à ideia da pedra furta-cor, reafirmando-a. Dessa forma, posso retirar da "lista-negra" as pessoas enfezadas, rabugentas, exigentes, críticas e por aí vai... Porque hoje vejo que naqueles momentos de suas vidas elas, na condição de pedras furta-cores, exibiam a cor propícia, segundo o que a ocasião lhes suscitava, visto que as pessoas não sentem nem se manifestam obrigatoriamente da mesma forma.

Toda essa reflexão me faz pensar também em mim como pedra furta-cor, assim como na maneira como reajo diante da vida e de tudo o que ela apresenta para mim e para todos. Então, eu me vejo na mesma condição em que eu via certas pessoas e, inevitavelmente, também me vejo passível de "julgamento" e, portanto, também sujeita a equívocos. Nesse pormenor, eu menciono o ensinamento popular: não julgue pela aparência. E isso digo tanto aos outros como a mim mesma.

Por essas e por outras, vejo que tudo na vida é sempre uma questão de ótica e que a mudança da ótica é uma questão de tempo. Vejo que muita da aprendizagem que temos na vida decorre das experiências do cotidiano, das relações que temos com as pessoas, sejam essas coletivas ou individuais. Vejo ainda que essas experiências vão sendo armazenadas dentro de nós automaticamente e que, apenas num dado momento, naquele em que nos há um estalo, fazemos uso delas, como de um arquivo que baixamos o qual um dia resolvemos abrir para conferir sua utilidade.

Dessa maneira, a vida fica indubitavelmente mais leve, pois passamos a nos defender menos, a evitar o rigor da crítica destrutiva, que quase sempre flui dos nossos mecanismos de defesa, motivados, na maioria das vezes, mais pela nossa autocrítica do que pela crítica do outro. Sendo assim, ver as pessoas sob a ótica da pedra furta-cor é bem mais bonito, e um tanto ainda mais agradável, vê-las como arco-íris, porque isso torna a vida, sem dúvida, mais alegre e, consequentemente, melhor.

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