quarta-feira, 14 de maio de 2014

Sorriso Amarelo


Não era um dia de planos para se divertir. Era só mais um dia para se enfrentar a vida mais que tudo. Mais um dia de sorrir de canto de boca, um sorriso meio amarelo. Meio de metade mesmo, não de um pouco amarelo. Era um meio sorriso, por isso, meio, por isso, amarelo.

Há muito esboçava sorrisos assim, da cor de algumas  frutas quando maduras. Frutas tais como a pera e a banana. A vontade de dar a algumas pessoas uma "banana" em vez do sorriso amarelo não lhe faltava, mas a sua compostura sobressaía à falta de bons modos e, por isso, engolia muitas bananas com cascas como se engolem  sapos.

Seguia a escada a baixo impulsionada pelo peso da obrigação. Como ser humano e vivo tinha obrigações para com a sua vida. Algo assim que ultrapassava as barreiras dos dogmas. Tinha que ser grata por viver. Mas isso não era o bastante. Tinha que demonstrar  de alguma forma gratidão pela vida. Então, muitas vezes, quando se punha pensativa sobre a vida, ensaiava gestos e atitudes para se demonstrar grata  por estar viva.

Costumava ensaiar atitudes mentalmente e, às vezes, sem querer se percebia gesticulando ou fazendo caras e  bocas em público. Torcia para que ninguém tivesse assistido a uma dessas inusitadas cenas. Pensava muito na sua condição mental. Estaria louca!? Depois pensava que louco não pensa se está ou não louco, e pensava que viver era a própria loucura, então pensava no quanto isso fazia de si  uma pessoa "normal". 

Pensava nas roupas que estendia normalmente no varal; pensava no despertador que  normalmente programava para lhe acordar pela manhã; pensava nas compras que fazia normalmente no supermercado e nas filas que enfrentava normalmente para pagar contas. Via que era enlouquecidamente normal e, por dentro, sorria um meio sorriso bem amarelo e dava "banana" para a vida e para todos aqueles a quem sempre desejara fazê-lo. Mentalmente aquilo não representaria descompostura. Sim, ela era hipócrita. Normalmente hipócrita.

Ao fim da escadaria, levantou a cabeça e viu na rua de frente, estacionado magistralmente, um imenso caminhão amarelo. Olhou-o de ponta a ponta admirada com o seu tamanho. Pensou atropeladamente em coisas: no que seria a carga que ocupava o interior do veículo colossal;  no peso nele contido;  em si como motorista de um caminhão daquele porte... E em meio a tantos pensamentos, inevitavelmente, pensou na cor amarela do veículo. Na cor amarela do sorriso, da banana...

Logo, ela pensou no peso que lhe era esboçar, diariamente, aquele  sorriso amarelo. Olhando o caminhão  ela supôs  o peso que  carregava todos os dias. Mas viu que isso não era algo mensurável. Imaginou então muitos caminhões amarelos, azuis, pretos, vermelhos... A cor do caminhão não tinha o mesmo valor que o amarelo do seu sorriso. Ao contrário, era uma cor radiante, reluzente e revigorante.

Deixando para trás o caminhão e suas características, que nela suscitaram tanta evasão, atravessou a rua apressadamente. Agora a questão não era mais sorrisos ou caminhões amarelos. A questão era o relógio. Estava em cima da hora para a prova à qual  submeteria muita gente. Passou pelo imenso portão. Identificou-se. Seguiu à sala indicada. A cabeça parecia uma grande bola pesada, mas oca. 

Já na sala, olhou as pessoas sentadas e apáticas, e seus olhares tão iguais. Deu-lhes orientações. Orientações sobre o uso do uniforme: sapato apenas preto, meias, brancas. Sobre o uso do material: proibido o uso de canetas de tinta vermelha; permitido  apenas o uso de canetas de  tinta preta ou azul com canos transparentes. Falava de cores. Nas cores que ora dominavam, ora eram  dominadas. 

Voltou o pensamento para os meios sorrisos. Pensou também na "normalidade" que  livrava as pessoas da condição de loucas. Todas tão iguais e politicamente normais, com seus meios sorrisos e olhares perdidos. Inevitavelmente ela voltou à "banana", ao caminhão amarelo e pensou em como seria bom atropelar com o caminhão todas as situações que tornavam os sorrisos de tanta gente meios, pela metade, amarelados e tristes.

Estava naquela retrospectiva mental, quando alguém lhe tocou o braço. Ela levantou os olhos na direção de onde veio o toque e percebeu a sala  quase que inteiramente vazia. Em cima da mesa, a pilha formada pelas provas já entregues. Mirou o rosto do último aluno a lhe entregar a prova. Era um rapaz de descendência chinesa. Leu o sobrenome Lin. Lembrou da origem da expressão "sorriso amarelo".  Esperou o aluno sair da sala. Fechou relaxadamente os olhos. Jogou as mãos para trás como num alongamento e esboçou um radiante sorriso branco seguido de uma breve gargalhada. No corredor ao lado, o aluno chinês também sorria. Não se sabe se um sorriso branco ou amarelo.

Nenhum comentário: