quarta-feira, 14 de maio de 2014

O Ogro Adulterado



Não era um ogro comum. Era fidalgo e bonito. Era dissimulado. Não era espontâneo como geralmente os ogros costumam ser. Era mentiroso, cheio de artimanhas, ainda que previsíveis e bem  comuns. Mesmo assim era um ogro. Um ogro que envergonhava os demais, por ser fajuto.

Ora, ogros são tão genuínos em sua sinceridade. Não havia em nenhum conto ogro que fingisse, que segurasse seus ímpetos. Afinal, um ogro deve evidenciar seus maus modos, suas características inatas que lhe moldam a essência  severamente rude, melhor dizendo, grotesca.

Mas aquele era um ogro adulterado. Tinha características de príncipe, ainda que muito superficialmente. E nisso se aproximava um pouco da sua natureza de monstro, de aberração. Não tinha bondade profunda. Era raso de bons modos e limitado em sua generosidade. Não, não tinha de fato generosidade. Mas o que o fazia pior do que o ogro comum era justamente a sua pretensa dissimulação.

Ogros, são, em geral, muito maus e, na mesma medida, muito estúpidos. Nisso ele era um ogro perfeito: mau e tolo. Mas a sua estultícia ia além, porque se julgava esperto. Tanto, que mentia e nem percebia. Falava mentiras como quando se bebe água com sede: com muita vontade. Depois as negava veementemente e se irava. Mas a sua tolice residia no ato de mentir e se atabalhoar com as próprias mentiras.

O ogro mentiroso e corrompido, diferente dos outros, era falso e, por isso, não era aceito no clã dos ogros genuínos. Então, ele era um ogro solitário, porque não tinha amigos. Ele era detestado pelos maus e odiado pelos bons. Não se enquadrava em nenhum clã. Mas ele seria o primeiro ogro corrompido da história dos contos de fadas. É, os ogros são personagens rudes que permeiam os contos infantis. 

Esse seria o primeiro exemplar de um ogro misto, dando origem à falsidade no mundo encantado. Isso não faria dele alguém exatamente nobre, mas alguém único. Dessa forma, ele ganharia originalidade e passaria, quem sabe, a ser visto com bons olhos, quando arrebanhasse seguidores para o seu perfil de conduta mista.

Moral da história: Mais vale um ogro verdadeiro do que um ogro que  finge.

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