terça-feira, 13 de maio de 2014

Encaixotando sonhos.




Temia não conseguir ultrapassar os limites do banal. Trabalhava sempre mentalizando fatos passados ou construindo imagens de um eventual futuro; pelo menos no que dizia respeito a seus desejos. Quando encaixotava os objetos, fazia isso sem que tivesse que pensar muito. O aprendizado por automatismos, aquele que lhe possibilita andar de bicicleta sem nunca esquecer a técnica, embora você leve anos sem  fazer isso, também não lhe exige muita concentração ao executar tarefas.

Sendo assim, ela trabalhava quase sempre com o pensamento bem longe. Colocava os objetos de louça nas caixas sem medo, tamanha era a sua habilidade para aquela função. O salário pequeno, ao mesmo tempo que lhe desmotivava, lhe impulsionava a querer mudar de vida. Perguntava a  si mesma como conseguiria  ultrapassar as barreiras da banalidade em que vivia com o trabalho mecânico de encaixotar objetos. Nada respondia. Não porque a pergunta fosse dela mesma, uma espécie de pergunta retórica, mas porque não tinha mesmo resposta para aquilo.

Depois de  ter encaixotado todos os objetos, tirou o avental e se se dirigiu ao relógio de ponto. Passou o cartão pela leitora e, feito isso, guardou o crachá. Cumprimentou o porteiro com um gesto e atravessou a rua. Quase sempre ficava triste com o que as ruas lhe mostravam. Tantos pedintes! Pessoas doentes, mulheres sujas com criancinhas, pessoas idosas... Havia, inclusive, uma velhinha a quem sempre dava alguma moeda ou parte de seu lanche, mas às vezes ela não tinha nada a oferecer e evitava a esquina onde a senhorinha sempre ficava sentada, esperando a misericórdia das pessoas. Ficava triste, pois mesmo  sem nada ter a oferecer algumas vezes, recebia o afetuoso sorriso daquela vovó alheia e largada ali naquela calçada imunda. Aquele era um dos dias em que nada tinha a dar além do seu olhar pesaroso e profundo, então ela preferiu evitar aquela rua onde a velhinha sempre estava. Aqui, acolá se distraía com algo nas ruas, nas vitrines das lojas, mas o pensamento de fugir do banal lhe voltava sempre mais carregado de desejos.

Após dobrar muitas esquinas, finalmente, chegou a sua casa. Os vasos fixados na parede exibiam as plantinhas verdes e viçosas. Jamais saía sem aguá-las. Olhando assim para elas, se questionava sobre o pensamento que as vezes tinha a respeito do fato de levar uma vida vegetativa. Olhando para o viço de suas plantinhas e para sua linda verdura, contrariava o pensamento comum de associar sedentarismo à vida vegetativa. Ao menos as plantas não tinham que encaixotar objetos para um patrão rico e  mesquinho, que lhe pagava um salário miserável. Fora isso, as plantinhas lhe pareciam tão felizes na sua condição de vegetal. Aquele era um  entre tantos questionamentos frequentes aos quais julgava patéticos.

 Entrou em casa antes que escurecesse por completo e trancou rapidamente a porta. Ali, se sentia como se fosse outra pessoa. Parecia mais leve. Enquanto tirava a roupa para o banho, retomava a trajetória costumeira dos seus pensamentos. E, quando cansada de tanto pensar, fugia do pensamento repetitivo que lhe chegava a incomodar, novamente se pegava martelando  a cabeça com ele. Era algo como cantarolar mentalmente uma música que desejava esquecer. Não que quisesse fugir de seus propósitos; daqueles que lhe originavam o pensamento contínuo, mas porque sabia que ainda não tinha mesmo resposta para aquilo. 

Assim, resolveu jantar cedo e ouvir um pouco de música antes de dormir. A música lhe fazia também divagar muito, mas certamente teria pensamentos mais tranquilos e sentiria menos ansiedade ouvindo suas canções preferidas. Pôs os fones de ouvido numa altura confortável, que lhe possibilitasse dormir. Deitou-se e, já aconchegada sob os lençóis, tinha finalmente pensamentos  aleatórios e incrivelmente reconfortantes. As músicas lhe permitiam isso. Lembrou-se de um cãozinho pequinês que teve na infância; de festas; de roupas... Riu ao lembrar de umas modas esquisitas. Lembrou-se de pessoas, de ocasiões especiais, de outras banais. Então, pensou agora na banalidade  como elemento pertinente à vida. E, relaxada que estava, elaborava respostas e reflexões sobre seus questionamentos que tanto lhe deixavam insatisfeita. Era algo como consolar e aconselhar a si mesma. 

Ela pensou na banalidade como opositora do criativo e do inovador. Esse pensamento lhe levou a refletir em seguida na utilidade do que é banal. E foi assim que adormeceu, para somente acordar com o som irritante do despertador. Depois de desativá-lo, levava sempre alguns minutos  para se sentar à cama, mais outros tantos para se pôr em pé  e, assim, até finalmente sentir seu corpo e mente completamente despertos para o novo dia.

As dificuldades para aceitar o dia a dia  lhe surgiam sempre mais intensamente, o que lhe levava a pensar constantemente em estratégias para vencer a banalidade habitual. Teria que cuidar de ser criativa se  quisesse mesmo mudanças.  Muitas vezes, se assustava com sua tristeza e desânimo e misturava lembranças com desejos, mas sempre buscando aproximar-se do real. Queria os pés no chão, para ter esperança de realizar seus desejos. Não queria ilusão, mas no fundo sabia que já era ilusão o fato de dormir sonhando que o outro dia fosse completamente diferente. E foi assim que ela descobriu que para ultrapassar o plano do banal, era preciso se iludir um tanto, mais até do que ter os pés no chão, pois que toda a realidade, ainda que confortável, acaba caindo nas malhas do banal, se vira rotina. E a partir dali, ela passou a separar mentalmente também em caixas sonhos e realidade. E aprendeu disciplinadamente a abrir sempre que preciso as distintas caixas, assim como colocar nelas coisas novas, e nisso sempre incluía novos sonhos ou novas frustrações. 

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