domingo, 6 de abril de 2014

Entre caixinhas de música e a Caixa de Pandora


Sentia-se como uma flor de maracujá talvez se sentisse numa plantação de rosas. Ou como se  uma rosa, porventura, se sentisse em meio a  uma plantação de girassóis. Quem sabe, como uvas entre maracujás. É, às vezes, sentia algo em comum consigo e as pessoas, assim como uvas têm algo em comum com maracujás (uvas  e maracujás são plantas aéreas; ambas são frutas cítricas), mas  na maioria das vezes, se sentia mesmo como flor de maracujá em meio a rosas. Algo como também ser humana, mas bem diferente, assim como a flor do maracujá é tão flor quanto  a rosa, sendo tão diferente dela.

Ser diferente num mundo de coisas tão comuns é, no mínimo, estigmatizante. Muitas vezes,  se sentia solitária, num universo particular de preferências e atitudes tão desprezadas. Sentia-se como uma alegoria descontextualizada; como uma risada não compreendida; uma ideia desfocada...

Mas  seguia. Gostava de ser ela mesma. De ser, ainda que se sentisse sozinha, fiel ao seu eu, com sua alma esquisita; com seu jeito complexo, contraditório, controverso... E seguia sendo abóbora numa plantação de cana. Espontânea, embora soubesse que a espontaneidade,  neste mundo de personas, não caía mundo bem: gerava conflitos, rejeição, desconforto e solidão. Não uma solidão de estar sozinha fisicamente, mas aquela de estar sozinha mesmo cercada de gente. De gente "amiga", inclusive. Cercada de seres humanos nem tão humanos assim. Ou quem sabe, por isso mesmo, tão humanos...

Sentia-se tão feliz, por exemplo, com o cheiro que surgia quando começava a chover. Sentia-se feliz com a chuva, durante o dia. Mas temia a chuva na noite escura. Temia porque a noite então crescia, abundava e lhe trazia pavor. Mas a chuva que caía durante o dia, esta ela contemplava, respirava e com ela se enebriava. Podia brincar com os pingos ou mesmo com a chuvarada. Gostava se a chuva lhe encharcava. Brincava até com o frio e, mesmo arrepiada, com a roupa a seu corpo colada, ela sorria, dançava solitariamente, sob alguns olhares de crítica de pessoas que talvez até quisessem dançar na chuva também, mas que temiam não ser compreendidas pelas outras.

Gostava das diferenças, da assimetria, das minorias. Era tão mais atraente, seguir por uma vereda do que por uma estrada larga. A vereda, geralmente, guardava lindos segredos. Era como um tempero marcante. Sim, como um tempero de sabor  agridoce. Isso mesmo. Era agridoce. Preferia dar sua acidez também junto ao seu mel. Assim, se sentia verdadeira, sem disfarces. O disfarce é quase sempre muito traiçoeiro, salvo quando lhe protege de algo. Mas o disfarce que dissimula, ah, desse ela tinha horror, corria léguas! Porém isso não era suficiente para que ela escapasse da dissimulação, pois se vive num muito camaleônico, em que pessoas  dizem uma coisa e fazem outra; criticam o que você faz, desejando fazer o mesmo. Em um mundo onde a confiança que você deposita no outro  é  usada ardilosamente.

Preferia ser cogumelo em meio a um canteiro de flores. As flores, tão belas, coloridas e frágeis, algumas vezes, escondem toxina, ao passo que o cogumelo, geralmente, inofensivo,  causa certa aversão. Então, gostava de ser como um cogumelo. Preferia não causar frustrações, mas surpresas agradáveis, algo por exemplo, como alguém lhe perceber flor mesmo que aparentemente você seja um cogumelo venenoso.

Não há nada mais prazeroso que uma surpresa agradável, mas as decepcionantes, ah, elas são demasiadamente frustrantes! Imagine você tocar uma flor bela e depois perceber que sua beleza era, na verdade, um disfarce para seu veneno; um meio de atração. Mas se você olha algo e sente por ele antipatia, e depois descobre nele algo surpreendentemente prazeroso, é sublime.

Então, para ela a sua aparência, assim como a das outras pessoas, passou a ser vista como algo meramente aparente (ainda que redundante). Por isso, em seu pensamento, a vida apresentava continuamente caixinhas de música delicadas, atrativas e desejadas, mas também caixas, muitas, várias, caixas como as de Pandora. O difícil seria saber se, ao abrir a caixinha de música, você se depararia com o esperado ou com males.

Mas, mesmo julgando-se uma caixinha de surpresas agradáveis, ela sabia que todos os seres humanos eram, antagonicamente, caixinhas de surpresas agradáveis ou caixas medonhas como as de Pandora. Sabia, portanto, que a sua condição humana já lhe havia "possibilitado" fazer mal a alguém; decepcionar, enganar... pois o ser humano  tem intrínseco o dom de mimetizar, mesmo que o faça inconscientemente. Sabia que sua caixinha de música também guardava males, tais como a  Caixa de Pandora, porém de  uma coisa ela tinha certeza: preferia ter uma flor oculta na sua aparência de cogumelo; ser uma melodia, e não um mal. Tentava, então, manter fechada sua caixa de pandora, embora soubesse que abri-la ou não, nem sempre  dependia de sua vontade, mas, em boa parte, da vontade de quem resolvesse fazê-lo, e quanto a isso se sentia aliviada, porque embora falha, imperfeita, não desejava lançar mão da sua caixa de pandora, mas de todas as melodias quantas fossem possíveis emitir de sua caixinha de música.

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