quinta-feira, 3 de abril de 2014

O Fuso




Desceu os olhos ao fundo do salão e encontrou um fuso. Curiosa, mexeu, e nele feriu-se. Subiu a escada e refugiou-se no quarto, e, então, dormiu profundo. Estava parada, dormente. Seu modo inerte não havia chamado a atenção de ninguém, pois estava oculta, escondida da vida.

Horas passadas e o serviço de quarto a procura. Era o pessoal da limpeza. Batidas céleres à porta, que nada escuta. E a sonolenta, ouvindo longe o som intermitente, não abriu os olhos, não se moveu, não se levantou. Voltou ao descanso secular. Não sabia que o fuso ainda podia enfeitiçar, menos ainda que enfeitiçava gente comum, sem estirpe.

E a ordem era dormir e dormir. Dormiu à manhã, à tarde, um pouco à noite, mas o estômago lhe batia à porta. Estava em jejum desde o século passado. Resolveu sair. Queria ver gente. Vestiu-se imediatamente, sem ajuda de fada madrinha. A aparência naquele momento não lhe importava. Queria descer a ladeira sentindo o vento. Queria ver pessoas, ouvir barulhos...

Sentou-se à mesa de uma lanchonete. Olhou a toalha xadrez que lembrava piquenique. Comeu o pão sem saborear e bebeu o suco, matando a sede. Arrumou os cabelos num coque alto; pagou a conta e saiu. Resolveu se distanciar mais do hotel e continuou descendo a ladeira, até alcançar a rua de baixo. Agora, precisava ligar sua bússola para não se perder pelas ruas.

Depois do lanche, mais energizada, caminhou confortavelmente, mas tentava não pensar e acabava pensando em não pensar e não sabia como fazer isso. Então, caminhou. Deu numa rua arborizada, com árvores podadas da mesma forma, arrumadinhas; pareciam penteadas. Resolveu fazer parte daquela paisagem, que vista de fora atraía, ao mesmo tempo que amedrontava.

Caminhou junto às árvores. Sentiu um clima de amizade, como se as árvores lhe emitissem energia. Sentiu-as amigas, companheiras... Olhou-as de cima a baixo e vice versa. Sentiu pânico pela escuridão que não lhe permitia ver os detalhes. Mas era na escuridão que residia a mágica daquele momento.

De súbito, caminhou de volta. Estaria no caminho certo? Desorientou-se, não sabia em qual esquina havia dobrado antes. Olhava as ruas tentando uma visão panorâmica para lembrar o trajeto. Resolveu seguir por uma delas. Queria andar. Ficar parada não lhe faria descobrir o caminho de volta.

Foi andando e se sentindo cada vez mais perdida, desorientada. As ruas desertas lhe faziam companhia. Sua visão adaptava-se à pouca claridade momentânea. Sentia-se como parte integrante da paisagem urbana, naquela cidade. De repente, viu um facho de luz. Seguiu avidamente para o lugar, onde encontrou muita gente, numa espécie de festa de rua. Jovens, adultos, idosos... Sentiu um profundo alívio.

Olhou cada grupo de pessoas atentamente. Parecia invisível a elas. Resolveu pedir ajuda para retornar ao hotel e se dirigiu a um senhor sentado que segurava uma bengala. Ele olhou-a com atenção, mas não a compreendeu. Falou algo num idioma que ela não reconheceu. Ela dirigiu-se a outra pessoa; agora a um rapaz simpático que usava barba longa, mas ele também não a compreendeu. Então, tentou outra pessoa. Logo percebeu que todos ali falavam a mesma língua. Sentindo-se deslocada e sozinha, saiu às pressas. O desespero lhe tomou a alma. Correu, mas percebeu que não conseguia se mover com rapidez. Seus passos ficavam mais lentos do que se caminhasse normalmente.


De repente, sentiu um sono profundo. O mesmo de antes, após se machucar no fuso encontrado no salão. Exausta dormiu pesado. Sentiu que sonhava intensamente. Muitas coisas se misturavam no seu sonho. Agora, sonhava saltando de um lugar muito alto. Sentiu um frio na barriga. Ouviu batidas. Não, não era as de seu estômago, embora já sentisse fome novamente.

Abriu os olhos. Olhou em volta e se percebeu na cama do hotel. As batidas se intensificavam. Dirigiu-se à porta, mas lentamente; não conseguia andar rápido. Sentiu as panturrilhas doloridas. Lembrou-se da descida à ladeira e da sensação de correr e não sair do lugar. Ouviu passos afastando-se da porta. Abriu-a. Olhou ao redor. Não havia mais ninguém lá. Desceu o olhar sobre o tapete da porta e viu um objeto nele. Abaixou-se com dificuldade. Pegou a pequena caixa de madeira. Abriu-a com receio. Viu uma velha bússola no interior da caixa. Voltou para a cama desorientada, segurando a bússola.

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