sábado, 26 de abril de 2014

O Encontro


A alameda  ladrilhada não era  tão larga, mas era bem comprida. Caminhava embebida no silêncio do lugar. O silêncio era de uma calmaria tamanha. Caminhava lentamente da mesma forma como ruminava sobre as coisas. Um pensamento lhe conduzia a outro, depois a outro e a tantos outros, de forma que já não sabia sobre o que havia pensado a princípio. Mas isso não lhe importava. Gostava de pensar. Fazia isso o tempo inteiro.

Olhava a copa das árvores mais baixas. Buscava  algum fruto nelas. Admirava as cores diversas das folhas das plantas que havia na extensão da rua. Às vezes, um pensamento lhe fazia ficar cabisbaixa, mas como pensava em muitas coisas diferentes, alguns pensamentos a deixavam com os olhos risonhos. Não queria sorrir de fato. Achava patético sorrir sozinha.

Quando olhava para o chão ladrilhado, sentia falta da areia para marcar suas pisadas. Olhou para uma árvore de tronco avantajado e teve vontade de talhá-la com um pensamento para registrar nela aquele momento. Sentia que ele era especial e mágico, mas não andava com nada cortante na bolsa. Além disso, achava injusto ferir uma planta só para satisfazer um desejo.

Avistou um banco de madeira artesanal colocado abaixo de duas árvores bem próximas, certamente no intuito de aproveitar a sombra projetada por elas. Como andasse sem relógio, não tinha muita noção da hora. Mas não estava muito preocupada com horário. Ainda era dia e o Sol parecia brando, porque andava aqui acolá sob a sombra das árvores e o vento estava sempre presente.

Sentiu vontade de sentar-se naquele banco, mas a solidão do lugar, ao mesmo tempo que lhe agradava, lhe causava desconforto. Sentia medo daquele vácuo que a ausência de outras pessoas causava. Pensava sobre coisa prováveis como um assalto ou um bicho feroz saindo de alguma moita. Mudava o pensamento com certa dificuldade, por causa do medo que lhe forçava a pensar naquelas situações.

Seguia a caminhada lentamente, ainda que desejasse correr. Estava meio sonolenta; não tinha disposição para movimentos mais rápidos naquele momento. Não estava exatamente suada, mas sentia a temperatura do corpo mais elevada por causa da caminhada extensa.

Os óculos escuros lhe protegiam a visão, além de lhe dar mais segurança para olhar constantemente a várias direções, sem que eventualmente fosse vista por alguém que a olhasse. Seguia alternando os lados esquerdo e direito da alameda e, às vezes, andava pelo meio dela, já que ali não havia praticamente trânsito de veículos.

Sentia-se já cansada, mas seguia resoluta e ansiosa. Estava ansiosa para chegar ao destino. Tentava apressar os passos. Umas vezes conseguia passadas mais largas, mas acabava por voltar ao ritmo inicial de caminhada. Agora podia avistar pessoas. Elas estavam um pouco mais à frente.

Caminhava agora mais segura. Sentia-se acompanhada e de alguma forma protegida. De repente, ouviu passos atrás de si. Não teve coragem de voltar-se para trás. Sua respiração acelerou, sentiu o coração palpitar forte. Apressou o passo. Os passos atrás de si também aceleraram. Ela sentiu o delicioso aroma de um perfume conhecido. Passou as mãos nos cabelos. Seguiu caminhando com passos largos. A boca seca. Lambeu os lábios para umedecê-los.

As passadas aceleradas lhe fizeram torcer levemente o pé direito. Sentiu uma mão apoiando-a energicamente. Seus olhos sorriram. Preocupou-se com a maquiagem. A mão vigorosa lhe  puxou para si. Seu corpo girou e ela caiu lenta e propositalmente nos braços do namorado. Inspirou deliciosamente o seu  perfume  misturado ao cheiro natural. Entregou-se a um caloroso beijo.

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