domingo, 13 de abril de 2014

Nada Ser


Não tenho orgulho de nada,
Nem da condição humana.
Não gosto desta vida mundana.
Tudo por aqui me enfada.

Seria bom nada ser,
Mesmo que não mais sentisse.
Que eu não usufruísse
Do regozijo, prazer

De sentir o nada ser.
Que vontade me dá, Sartre
De ser nada; de não ter
Que acordar neste catre

Embebido de certezas
De que tudo é em vão.
Nunca se farta as mesas
Da fome de amor, de pão.

Mas tudo o que me resta
É a condição de ser,
Pois não há sequer uma fresta
Para alcançar meu querer.

Fico querendo então...
Desejando o inconcebível.
E retorno ao que é em vão.
É um querer impossível.

Assim, tudo o que me resta
É sentar à mesa farta
E comer o que não presta;
Tirar do bolo uma carta

Como num jogo de azar,
Em que quase não se ganha,
Mas que a ordem é jogar.
Filosofia tacanha

De um mundo absurdo,
Desconexo e perdido,
Onde quem escuta é surdo
E o inaudível é ouvido.

Parem o mundo que eu desço.
Inexistir me apetece.
Do mundo logo me esqueço
Este mundo me arrefece.

3 comentários:

J Ribas disse...

Sua poesia está a fazer o exercício da insatisfação e incompletude humana, com imagens que brotam da alma. Muito bom!

Suely Andrade disse...

Isso, Ribas! Grande percepção a sua!

Suely Andrade disse...
Este comentário foi removido pelo autor.