terça-feira, 22 de abril de 2014

Os Sonhos



Hoje sei que por mais que meu coração deseje, nem sempre as coisas irão acontecer do jeito que espero. Sei que nem sempre as histórias terão continuidade. Que nem sempre, ao dobrar uma esquina, encontrarei alguém ou algo que imagino ou que desejo encontrar.

Tenho consciência de que nem sempre a fruta bonita reserva o sabor esperado. Muitas vezes, a laranja aparentemente doce é tão azeda ou a goiaba apetitosa está bichada. Percebo também que nem sempre os alimentos  benéficos são, na mesma medida, apetitosos.

Sei que, muitas vezes, algo ou alguém que nos suscita medo ou repulsa não é  perigoso ou desagradável como parece, ou que podemos apreciar uma comida de aparência esquisita, a ponto de passarmos a tê-la como uma das favoritas e,  que aquela pessoa  a quem antipatizamos, pode se tornar perfeitamente nossa grande amiga.

Para ilustrar tudo isso, faço uso aqui de um lugar-comum: as aparências enganam. De fato, as aparências nos  enganam, muito embora, elas transmitam significados diferentes às pessoas, assim também como suscitam  nelas distintos sentimentos ou sensações. Isso, simplesmente, porque as pessoas são e agem de forma diferente, pelo fato de que  tudo neste mundo é muito complexo. O todo, é, na verdade, um conjunto de coisas menores e distintas. E isso abarca o plano da subjetividade, da abstração, tanto mais do que o plano das coisas visíveis, palpáveis.

 O fato é que as aparências jamais passarão de aparências, pois o ideal e o real são coisas distintas. O idealizado por nós sempre estará numa escala diferente daquilo que virá a acontecer, porque o sonho é, inevitavelmente, algo abstrato. Se assim não o fosse, não seria sonho, mas realidade.

Dessa forma, passei a ver a vida com menos encanto. Não porque tenha passado a achá-la sem graça, mas porque passei a percebê-la de forma muito realista. Uso agora outro lugar-comum: com os pés no chão. Assim, tenho sofrido menos desencantos, desilusões, pois mesmo que me entristeça por algumas perdas ou pela não realização de um desejo, hoje não sou mais tão atingida por tais fatos como ontem era.

Contudo, seria  um erro dizer que me "livrei" dos sonhos, mesmo porque, a vida sem sonhos se tornaria algo insuportável, demasiado enfadonho. Mas hoje convivo de forma diferente com eles. Na verdade, posso dizer que hoje sei sonhar. Estabeleço, inclusive, categorias para os sonhos: sonhos fantasiosos; sonhos possíveis, sonhos irrealizáveis... 

Entretanto, não deixo de pensar no sonho como algo sublime, encantador e necessário, e, então, me contradigo, porque penso no sonho como algo fora do palpável, do racional. Então, me pego a pensar em quão inútil é a tentativa de  racionalizar o sonho. E em como é inevitável fugir dele, porque percebo que na vida há muito mais do sonho do que do real e que o real nada significaria se não fosse o sonho de cada um. Isso mesmo. Percebo que o sonho é o que enfeita a vida, o que dá sabor às coisas, o que dá cores mais intensas a tudo.

O sonho é inerente  à própria condição de estar vivo. Sonhamos se estamos vivos. E, se paramos de sonhar, a vida fica um tanto morta, porque mesmo que  os sonhos estejam sempre numa escala superior ao real, eles nos  confortam, nos aquecem, porque os sonhos são o alimento da alma.

Pensando nisso tudo, eu me remeto a tantos sonhos e, assim,  a tantas fases diferentes de minha vida. Percebo, olhando o passado, como os sonhos me encantaram, como eles coloriram minha vida. E penso na minha vida sem eles. Penso em mim sem eles e me vejo tão diferente do que sou hoje e do que fui. Imagino-me outra pessoa se não tivesse tido os sonhos que tive.

Então, eu penso também na importância das decepções na vida, pois a vida nada mais é que  um contínuo ir e vir, um contínuo embate na busca pela satisfação. Volto ao uso do lugar-comum: altos e baixos. Sim, a vida é feita de altos e baixos, de contradições, de  decepções... E isso funciona mais ou menos como a essência nos perfumes, o tempero nos alimentos, a cor nas paisagens.

Por isso, sigo (mesmo que mais acautelada) a favor dos sonhos, desejando-os, ainda que  sendo mais realista, que sendo mais arredia, porque vejo que a vida necessita deles e que eles, simplesmente, tornam a vida mais bonita, mais desejável, mais atraente... Então, escolho sonhar com o dia em que eu possa realizar as coisas com que sonho, ainda que em  circunstâncias e em lugares diferentes e com pessoas também diferentes, porque são essas possibilidades que aliviam as nossas frustrações e que nos impedem de sucumbir e de desistir da vida.



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