sábado, 5 de abril de 2014

Dançando como as borboletas.


Com vontade de voar necessita da dança. Entra no salão para se alegrar, tentando se soltar. Na realidade, a dança é mesmo para ela uma espécie de voo. A tristeza lhe apavora. Gostaria de ser mesmo alada, de planar, levitar em rodopios vários e mirabolantes. Ela desejava apenas alegria para fugir um pouco das coisas diárias, que a faziam mais séria do que de fato se deveria ser nesta vida.

Essa necessidade, que lhe vinha do fundo da alma, de dançar como se voasse, acabava libertando-a um pouco de alguns medos. A postura tímida não era exatamente a de uma borboleta, mas estava colorida. Uma maquiagem leve, mas cheia de nuances, compunha com sua dança o seu perfil de borboleta. Outras quatro borboletas se juntavam a ela; amigos inseparáveis, ainda que um pouco diferentes da sua condição de borboleta. 

Passos surgem. Muitos passos de uma dança bem livre e solta. Ela se sente no ar, como se dançasse como uma borboleta ao som do vento. A saia rodopia com ela, querendo voar também. O amigo mais lépido tenta um rodopio único, juntando-se a ela num abraço terno e divertido. Os outros admiram o par de borboletas em seu voo frenético. Ela parece anestesiada pela música “da rainha”, que toca repetidas vezes. Depois, suspira, com o olhar perdido como se voltasse à realidade da qual tentava fugir. Ao seu lado os cavalheiros, quatro mosqueteiros que lhe protegiam e lhe faziam bem. Todos mergulhados na certeza de que o voo era temporário e que ela despencaria a qualquer hora. Por isso, se mantinham a postos como se formassem uma rede para lhe amortecer a queda.

A borboleta, esmaecida do voo, olha o teto. Com um gesto pede água ao garçom à sua frente. Por que não continua a dançar? Olha o relógio. Lembra-se das badaladas. Não tem conto de fadas, Cinderela. Não é borboleta. Mas sua carruagem está lá fora. Ela sempre a transporta. Como uma criança, ela pede para ir embora. O “pai” a recolhe com um abraço. São uma família de borboletas exaustas pelo voo intenso. Agora nenhuma quer rodopiar, mas dormir.

Enquanto segue de volta para casa com os amigos, ela pensa em outra acepção para  dança. É um sentido figurado vulgar. Ela pensa em dançar no sentido de se dar mal, de ser ludibriada. Uma dança trágica e feia. E pensa naquela comparação: como a dança podia ser associada a algo tão ruim como o logro? Ouve e canta uma música com os amigos. A mesma que dançaram no salão, a pedido dela. Era como uma extensão daqueles momentos de voo. Voltava para casa ao som da “dança da rainha”, mas não era sequer princesa. Era uma pálida borboleta, que se matizava artificialmente e que voava apenas quando dançava.

Voltava, então, para o seu casulo, até que lhe ocorresse novamente o súbito desejo de um novo voo.

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