sábado, 12 de abril de 2014

Ao Sopro do Vento






O andarilho caminha ao vento; a areia surra-lhe o rosto. Põe o lenço em volta da face queimada pelo Sol, mas, às vezes, uma rajada que vem em direção oposta retira-lhe parcialmente o lenço e ele tem que envolver novamente o rosto para protegê-lo. Anda, muitas vezes, com pouca água. A água como que evapora em seu cantil. Ouve a música do vento naquelas paragens desérticas.

Seus pensamentos lhe são conselheiros. E pensa... Pensa no curso da vida, como naquele curso que faz àquela hora exata. Olha para as mãos calejadas e pensa no tempo e no que ele faz. Em como ele marca a vida das pessoas, das coisas, de tudo... Até seus pensamentos eram calejados pelo tempo. Pensa em todos os caminhos os quais havia seguido ou evitado. Pensa em caminhos projetados ou inesperados.

Olha agora as andorinhas repousando nas grandes pedras daquela praia. Pensa nos caminhos aéreos por que elas já haviam passado. Pensa nas pessoas conduzidas pelas grandes aves metálicas. Em quantas já haviam morrido afogadas no mar; naquele mesmo mar. Pensa nos aviões de guerra que portavam mísseis e que dilaceravam vidas. E caminha com os olhos tão perdidos, imersos naquele mar.

Às vezes, muda a posição da mochila. As costas doem; os músculos se cansam. Sente uma fome imensa. Quer sorver tudo de bom que possa da vida. E aspira o vento que vem do mar com aquele cheiro forte característico. O vento o sopra. O vento soprava tudo... Seus cabelos parecem se desprender da cabeça calva. Estão ralos e grudentos. Seu corpo está salgado, pegajoso. Sua pele, ressecada pelo Sol, tem mais rugas que há dois meses. E ele caminha ao sopro do vento.

O céu, agora, nublado, traz o entardecer. O pôr do sol na praia era a própria imagem celeste. O vento gélido lhe faz tremer de frio e ele põe o velho casaco. Cantarola Celso Blues Boy e seu "Rock'n Roll". Lembra de sua própria trajetória como a passear pela música que toca em sua mente. Pensa na guitarra que lhe havia sido fiel companheira. Grandes tardes na garagem de casa com a velha turma de amigos. O vento havia soprado tudo... O tempo e o vento...

Lembra-se do título do Romance, que nunca lera. Tenta lembrar o nome do autor. Nunca havia sido um bom leitor. Caminha seguindo sempre a linha da praia. Salta aqui e ali para evitar as ondas geladas. A noite se aproxima. Pensa na virada que sua vida havia dado. Um grande redemoinho! Pensa em quantos anos seria preciso para um homem realizar o que deseja. E pensa em quantos homens tinham vivido tão pouco. Pensa naqueles que estavam cerrados em alguma prisão pelo mundo à fora e regozija-se com a sua liberdade.

A noite chega, então, ele apressa o passo. Deseja de fato estancar a caminhada. Bebe um pouco da água que lhe resta. Está agradavelmente fresca. Segue buscando respostas para suas perguntas. Elabora novas perguntas e pula aquelas às quais não consegue respostas. Caminha, agora, descalço. Os pés na areia molhada lhe dão a sensação de massagem. Parece que a areia esfrega-os massageando. Agora, assobia uma canção antiga. Lembra-se do pai e de como ele apreciava aquela canção.

Para lentamente na areia. O céu já, escuro. Põe a mochila no chão, as sandálias, ao lado. Dirige-se ao mar. Abaixa-se e mexe na água. Junta uma bela porção com as mãos em concha. Banha o rosto como que purificando-o. Levanta-se. Joga o olhar dentro da escuridão imensa. Respira profundo. Fecha os olhos ao sopro do vento frio. Dirige-se à areia. Pega a mochila, Enfia os pés nas sandálias e sai da areia em direção à rua.

Busca algo com o olhar descansado. Parece tão mais revigorado. Apressa os passos. Já está de volta à "civilização". Busca algo no bolso. Um clique apontando para um carro lhe abre a porta. Limpa os pés e as sandálias. Bate a areia do corpo. Joga a mochila no banco ao lado. Liga o som do carro. Segue a viagem ao som de "Blowing In The Wind" na voz de Bob Dylan.

2 comentários:

J Ribas disse...

A canção do Bob Dylan ficou perfeita para o conto, é uma música emblemática que enriquece a ideia do texto. Parabéns.

Suely Andrade disse...

Que bom que você percebeu meu intento. Gostaria de ter posto a música como fundo, mas por enquanto, fica o vídeo.Obrigada por ler-me!