sábado, 26 de abril de 2014

A Natureza Falha do Ser Humano





O ser humano é naturalmente rival do seu semelhante. Por mais que se queira negar, que se tente ir de encontro a essa verdade, cada vez mais ela se confirma; salta aos olhos.

Alguém tem um amigo; um amigo bem presente. Aquele com o qual divide pensamentos, alegrias e passatempos. Então, um dia ele ganha um presente, uma ascensão; algo assim não compartilhável. Pronto! Está acionado o botão da rivalidade, da inveja, do despeito.

O amigo olha o outro e fala sobre seu motivo de alegria. O outro até tenta sentir só alegria, mas não consegue. É, ele também sente alegria pelo amigo, mas sente um grande incômodo, uma sensação de injustiça: " Poxa, por que ele merece isso e eu não? ". E junto a essa insatisfação sente outro desconforto grande: o remorso. E sobre isso ele pensa:" Poxa, eu sou seu amigo, não devo ficar chateado, mas feliz. Que tipo de amigo sou eu?". E então ele finge. Finge para o amigo e tenta fingir para si mesmo que está apenas e profundamente feliz. Para isso, usa a máscara cotidiana, que tem o botão acionado, assim como o botão da rivalidade.

Dessa forma, se estabelecem as regras sociais, de boa convivência, de bons modos... É, o pilar das etiquetas sociais se estabelece em função da necessidade de se fingir. Fingir sobre o que se sente, sobre o que se deseja, sobre o que se acha. Um verdadeiro combustível para a hipocrisia social. Isso mesmo. A vida em sociedade é fundamentada basicamente em encenações. E vivam as máscaras, as fantasias, os cenários!

Mas por que fingir? Por que se tem que fingir o tempo inteiro para os outros, se jamais se consegue fingir a si mesmo? Por que criticar o comportamento de alguém se você, na verdade, gostaria de fazer o que ele faz e não tem coragem ou condições para isso? O justo não seria que você fizesse um elogio a alguém que corajosa ou talentosamente consegue lhe superar em algo o qual você, por alguma razão, não é capaz de realizar?

Essa atitude seria sim justa, mas isso não é assim tão simples, visto que o homem é por natureza um ser competitivo em sociedade. Competitivo e ambicioso. Pode-se até inverter a ordem desses "atributos" humanos: ambicioso e competitivo. Sim, competitivo em função de sua ambição, que por sua vez, é gerada pela sua condição de ser imperfeito, incompleto, praticamente, inconcluso.

Deve-se então entender que o ser humano, por sua condição inata de imperfeição, busca diariamente se completar, se satisfazer mediante a força propulsora do descontentamento que lhe impele continuamente a desejar o que não tem. Algo que lhe é despertado pelo outro, já que o homem, além de imperfeito, é ímpar. Ímpar tanto no que se refere a virtudes quanto a defeitos.

Pensando assim, se pode entender também que virtudes e defeitos são conceitos muito particulares, se pensarmos no ponto de vista de cada um com relação ao que lhe faz bem ou mal, ao que lhe atrai ou lhe afasta. Então, se volta à questão inicial, que é a da rivalidade. A rivalidade que vem na sequência: ambição, competição; e tem-se uma justificativa para a rivalidade humana. Uma justificativa que adentra o campo da ciência, ao se pensar na rivalidade relacionando-a às questões existenciais que tanto conflituam a mente humana em qualquer lugar, época e em muitas fases da vida.

Sendo assim, se pode considerar que o fato de o ser humano criticar o semelhante em função da sua própria frustração, é plenamente aceitável, pois isso é algo intrínseco seu, na busca contínua de satisfazer, antes de mais nada, o seu próprio ego, pela vaidade da conquista, que por sua vez, é gerada pela ambição.

No entanto, para entender a rivalidade alheia, há que se entender a própria rivalidade, o que decerto só será possível se antes se pensar na própria condição de ser imperfeito, portanto, insatisfeito e tendencioso à busca pela perfeição, já que todos são da mesma espécie, e por isso, fadados às mesmas fraquezas.

Assim, é perfeitamente compreensível o fato de que algumas conquistas alcançadas pelo melhor amigo de alguém sirvam de motivo de inquietação ao outro, ainda que seja esse um amigo muito querido, visto que a inquietação que surge a partir desse fato nada mais é que a insatisfação consigo mesmo, o que seguramente coloca um na condição de rival do outro, ainda que essa rivalidade não aconteça de forma pessoal, mas bem generalizada, já que o outro pode também não ser um amigo seu, mas apenas alguém que conseguiu algo que você gostaria de ter.

Sendo assim, volta-se à questão primitiva da incompletude humana, que faz de qualquer homem um rival em potencial do outro, ainda que isso nem sempre seja reconhecido abertamente, o que agora traz de volta a questão da hipocrisia, das máscaras, do fingimento. Isso porque ao homem fingir é tão natural quanto ser competitivo, o que o faz ser resistente para reconhecer suas próprias falhas, porque ele está e sempre estará em busca da perfeição, já que é originalmente um ser falho e ambicioso.

Um comentário:

Abel de Carvalho Filho disse...

Não seria isso explicado se considerássemos ser a coisa humana criada para um fim espúrio? Criada por uma inteligência superior para servi-la como o gado serve ao pecuarista?
Não seria a ideia do dinheiro como ela é a fonte dessa miséria? Ou o combustível pelo qual esta inteligência abusiva controla o homem preso no curral?
Imagina: essa inteligência tem de sobra poder para não obrigar o homem a trabalhar para viver. Ou, pelo outro lado, se o homem pensasse por si e para si, ele daria conta de que a sua espécie já trabalhou demais, já juntou riquezas demais para continuar escravo do trabalho.
Mas, não, tudo o que uma geração produz desaparece, para que a seguinte continue trabalhando em vão.
Se essa inteligência tivesse um mínimo de respeito à sua criação, não o tipo de respeito que o pecuarista tem com o seu gado, todo ser humano teria a sua herança deixada pelos antepassados, todo ser humano seria rico, não precisaria trabalhar a contragosto, trabalharia por paixão ou lazer, viveria em paz, no seu canto e não teria de sentir inveja de quem quer que seja, não teria de competir com ninguém nem provar a si mesmo que tem dons de competidor. Mas vá dizer isso às arcaicas instituições que irraduan a cultura de extorção eterba da espécie humana a partir do coração da Europa.