domingo, 30 de março de 2014

Regresso


 O soalho escorregadio parecia uma pista de patinação. A água da chuva havia entrado pela janela semiaberta. Com uma vassoura gasta, ela tentava retirar a água. A casa era grande e vazia de pessoas parecia ainda maior. Os móveis antigos davam-lhe um aspecto nostálgico. Quadros de paisagens alegravam as paredes claras. Um lustre imenso e empoeirado na sala a fazia perder o olhar nos seus contornos.
 Lá fora, a natureza multicor. Tons de verdes que não via em outros lugares. Plantas carregadinhas de flores e frutos e árvores imensas com troncos sólidos. Era a natureza que se manifestava viva e cíclica. Sentou-se no degrau superior da escadinha da frente da casa. Lançou o olhar lá alto ao cimo das árvores e mais além: às nuvens. O céu  agora estava azulado e com nuvens branquinhas que desenhavam formas variadas: um carneiro, um dragão, uma mão, um senhor...
 Desceu o olhar e passeou com ele pelos arredores. Olhou a estrada com vegetação às margens. Avistou um pássaro no galho de uma árvore,"contemplando-a". Ela fixou seu olhar nele e o admirou pela beleza de sua plumagem, pela sua mobilidade. Esperou ouvir o seu canto, mas a chegada de um grupo de pássaros à árvore o fez alçar voo para longe. Estava naquele estado letárgico, que divide derrota e esperança, quando  ouviu um som que vinha da mata ao fundo da casa. Era um som magnânimo, uma sinfonia que abundava em acordes, algo celestial. Lembrou-se das aulas de música na antiga escola em que estudara na infância e em parte da adolescência.
 Levantou-se lentamente, levada pela atração daquele fato inusitado. Andou como que ao ritmo da música, ritmadamente. Caminhou até alcançar a mata e embrenhou-se pouco a pouco. Seus olhos iam acostumando-se ao ambiente fechado e escuro. Já não ouvia o som, mas a curiosidade lhe fazia seguir por entre a vegetação fechada. Zumbidos, pios, cicios lhe invadiam os tímpanos. Estava confusa e tonta. Resolveu voltar.
 Não era exatamente medo o que sentia. Tinha um mal-estar esquisito. Andava firme, com passos largos. Queria sair logo dali. Estava sentindo-se uma intrusa  naquele ambiente de tantas criaturas. Algumas tão ocultas que lhe causavam medo; outras tão visíveis e tranquilas, que a confortavam. Retomou os pensamentos de antes. Pensava na mudança para a velha casa; seu primeiro lar. Como seria difícil estar lá sozinha  e ao mesmo tempo  acompanhada de todas as lembranças! De repente, tropeçou em algo. Olhou para baixo buscando o motivo do tombo e viu o cipó de uma planta tomando conta de um trecho do caminho.
 Finalmente conseguiu sair da mata. Avançou para a casa, agora, com certo medo. Olhou o terreno, capturando de cada espaço uma lembrança.  Encontrou-se no balanço que ficava em um dos galhos da algarobeira; mexendo no limoeiro; correndo em torno do cacimbão... Viu a mureta inicial da construção de um tanque; pensou no gado transitando pelo quintal. Lembrou-se das noites no grande quintal escuro, ouvindo a conversa dos adultos. Estava prestes a alcançar o batente da porta dos fundos, quando ouviu da mata o som que antes a havia atraído. Parou por alguns segundos à porta. Àquela hora um medo profundo lhe invadiu a alma. Correu para dentro da casa e trancou todas as portas e janelas. Abrigou-se debaixo de um cobertor grosso. Uma chuva repentina começou a cair. Já não podia ouvir o som da sinfonia. Deitou e dormiu cheia de lembranças e dúvidas.  
  


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