sábado, 1 de março de 2014

O Homem Moderno (Sátira do poema O Novo Homem, de Drummond)


O homem será refeito,
Registrado em cartório.
Terá muitos defeitos;
Comprado em empório.
Virá já doente,
Anunciado na Veja,
Semanalmente.
Terá saúde carqueja
E espírito fracassado.
Viverá no lixo,
Quando descartado,
Sem o menor sacrifício.
Pedirá ajuda
Para, enfim, morrer.
Sem nenhum afeto,
Terá vida dura,
Sendo anteprojeto
De formatura.
Será prisioneiro
De axiomas.
Não terá herdeiro.
Sofrerá sintomas.
Terá medo de enfarte.
Comerá pouquinho
E sempre à la carte.
Mesmo um bocadinho,
Causará efeito
No seu digestório,
Que terá defeito
Já desde o empório.
Dispensará o amor,
Honestidade ou gracejo.
De “por favor”,
Nem lampejo.
Sobrar-lhe-á desamor.
O senhor robô
Vai ter vida morta,
O espírito roto:
"De nove meses, ainda?
Sim, mas será eterno.
Quem não quer vida infinda?
Assim será o homem moderno.
Mas, de saúde,
Não será sua gestação.
Isso não se alude;
Terá mesmo dor e perturbação.
O mal será inato?
Doping planejado?
Fato; não é boato!
É o caminho traçado
Para ele: tudo herdado,
Decido, com dedo posto.
Ao resultado alcançado:
O reajuste no bolso.
Precisará de conselho.
Será tolo dependente.
“Ver para crer; nenhum pouco crente”
Será sinistro?
Não surpreenderá.
Terá mente anexa
Para registro.
Memória complexa.
Pouco compreenderá.
Reflexão não fará
O pobre infeliz.
Se antes já não lia,
Não lerá mais nada.
Terá consciência,
Mas atrofiada.
Viverá num exílio
O homem moderno.
Preso em domicílio,
Num claustro eterno.
Sua independência
Nunca existirá.

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