sexta-feira, 28 de março de 2014

Dominação


O arreio apertava-lhe a alma. Sentia que o ar lhe faltava. Rédeas nunca lhe conquistaram. Se havia uma norma exigida, que lhe contrariasse a liberdade, dava meia volta ou sequer saía do lugar.


Mas as prisões, geralmente, são impostas; as prisões determinadas por outros agentes que não sejam nós mesmos. E aquela prisão havia sido feita de forma que ela não percebesse. Era uma prisão sutil ao mesmo tempo que era impactante.


Puxava a fivela para desprender a rédea que lhe deixava a alma dolorida, mas sem sucesso. Muitas vezes, o fluxo do dia a impedia de pensar na liberdade que já não tinha. Então, a rédea parecia se acomodar ao seu ser como se dele fizesse parte.


No entanto, quando havia certa calmaria, a sensação de prisão lhe voltava. Mas ela não pensava em combater a causa, o incômodo do efeito lhe saltava à alma; destacava-se. A névoa que surgia era uma imensa nódoa que lhe turvava a visão. E já não podia apreciar nitidamente, por exemplo, uma paisagem.


O seu todo era de uma insipidez hiperbólica. Borrões lhe moldavam a face. Não possuía mais o antigo reflexo do espelho. Confundia-se com uma paisagem artificial em ruínas, gasta pela erosão descontrolada. Se tomasse algum assento, podia ser facilmente ignorada, ante a inércia e a falta de graça de seu ser.


Não tinha mais graça! Isso havia se perdido no labirinto de seu trajeto. Mas a graça não lhe fazia falta. Estava construindo um castelo e uma muralha com pedras sólidas e toscas (propositadamente feias), com os quais intencionava o exílio.


O exílio físico por vezes colabora com o exílio da alma. Já havia antes começado uma inusitada construção em torno de si mesma; algo que lembrava uma carapaça reptiliana. Mas a prisão, como em outras vezes, havia sido mais hábil. Então, a carapaça perdera o sentido e, com ele, a eficiência.


Tinha visões de um lago de cisne com a placidez celeste. Evocava de si a ave subjacente que habitava o universo do cisne antes da "transformação". Mas o inverno se fazia mais e mais longo, e denso, e frio. Então, a gaiola lhe abrigava.


Sim, a gaiola, porque a gaiola é a suma prisão do voo, mas contraditoriamente, muitas vezes, aquece e alimenta a ave; das mais banais às mais raras. Não sabia mais que tipo de ave era. Estava transitando entre a banalidade e o inusitado.


Esperava a oportunidade de abrir as asas para, finalmente, respirar livre. Mas a dúvida lhe fazia cativa, acomodada. Tantas vezes havia visto a gaiola aberta e recuara. Havia se afeiçoado à prisão? Noutras vezes, a liberdade lhe fragilizava. O meio termo era a sua alternativa. O que é morno conforta, aconchega.


Então, àquele dia, quando o arco-íris estampava suas cores no céu, a gaiola estava prestes a desaparecer em meio à claridade intensa que a visão ofuscava. Mas ela se sentia incomodada e pesarosa. Abriu então uma gaveta onde guardava coisas úteis e pegou uma venda escura. Amarrou-a aos olhos, e tateando, saiu da gaiola caminhando a esmo.

Nenhum comentário: