quinta-feira, 20 de março de 2014

INTIMISMO E SENTIMENTO DO TRÁGICO EM CONTOS DE LYGIA FAGUNDES TELLES



Suely Andrade de Oliveira[1]
Stélio Torquato Lima[2]

RESUMO: Este trabalho tem como objetivo estudar os aspectos intimistas presentes nos contos de Lygia Fagundes Telles, tendo como objeto de análise alguns de seus contos mais conhecidos. Para tanto, iniciamos com uma breve exposição sobre a prosa intimista desenvolvida no âmbito da literatura da autora, além de mencionar trechos de seus contos em que se evidencia a linha de sondagem psicológica.

Palavras-chave: Conto contemporâneo; Lygia Fagundes; prosa psicológica; análise literária.

INTRODUÇÃO

            Os dilemas do íntimo humano passaram a ser muito apreciados pelos escritores brasileiros a partir de 1945. Vários deles optaram por discorrer sobre essa temática, cada um conforme seu estilo. Trata-se da prosa contemporânea em que destaca-se o interesse na psiquê das personagens.
            Veja-se a esse propósito o que diz Tufano (1997, p. 127):
Em primeiro lugar destaca-se o interesse na análise psicológica das personagens, levando os autores a uma abordagem penetrante dos problemas gerados pela tensão existente entre os indivíduos e o contexto social em que vivem. Essa característica está presente nos romances de Clarice Lispector, Osman Lins, Lygia Fagundes Teles...
Essa abordagem, por vezes, realiza-se de forma direta, numa linguagem objetiva e forte, conduzindo o leitor ao âmago das misérias do cotidiano e aos mecanismos de opressão do mundo contemporâneo (grifo nosso).
            Tendo em vista a frequência da linha de análise psicológica em sua obra, o presente trabalho foi desenvolvido como requisito obrigatório para a conclusão de Curso de Graduação em Letras da Universidade Estadual do Ceará-UECE, tendo como objetivo central, analisar os aspectos intimistas presentes nos contos de Lygia Fagundes Telles.
            Como fim de tornar o trabalho mais nítido, ilustramos nossas argumentações mencionando trechos de alguns contos da autora, selecionados criteriosamente, a fim de atingirmos nosso propósito.
            Por fim, o desenvolvimento deste trabalho deu-se em três seções. Na primeira, realizamos uma pesquisa bibliográfica sobre a escritora, com dados que surgem desde o início de sua carreira até os tempos atuais, mencionando também fatos importantes de sua vida. Na segunda seção discorreremos sobre a prosa intimista desenvolvida pela autora. Na terceira e última seção, tornando mais específica nossa análise do intimismo no âmbito de sua literatura, passamos a mencionar trechos de seus contos seguidos dos comentários da crítica especializada que vêm oportunamente ao encontro das argumentações presentes neste artigo,
1.    Panorâmica bibliográfica de Lygia Fagundes Telles
A escritora, professora de educação física e advogada Lygia Fagundes Telles, nasceu em São Paulo, em 19 de abril de 1923. Pertence à geração dos prosadores contemporâneos realistas, desenvolvendo na mesma linha de sondagem psicológica que Clarice Lispector, uma narrativa que apresenta personagens mergulhados em si mesmas (em grande parte de sua obra), assim como Autran Dourado, Osman Lins e Adélia Prado.
Sua carreira literária inicia-se em 1938, com uma reunião de contos intitulada “Porão e Sobrado”.
No ano de 1941, deu início ao curso de Direito, quando teve a oportunidade de conhecer Mário e Oswald de Andrade, Paulo Emílio Sales Gomes (com quem passa a viver no ano de 1962), entre outros. Colabora com os jornais Arcádia e A Balança, na faculdade, onde também integra a Academia de Letras. Também, nesse ano, conclui o curso de Educação Física, iniciado em 1940.
Sua segunda publicação trata-se do livro de contos “Praia Viva”, publicado em 1944 pela editora Martins, de São Paulo.
Um ano após a morte de seu pai, em 1945, conclui o curso de Direito. Depois de um período de quatro anos, em 1949, publica pela editora Mérito, “O Cacto Vermelho”, seu terceiro livro de contos. Este livro recebe o prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras.
No ano seguinte, muda-se para o Rio de Janeiro, devido ao seu casamento com o então deputado federal Goffredo da Silva Telles Júnior, que fora seu professor na faculdade de Direito. Com ele teve seu único filho, Goffredo da Silva Telles Neto, que nasceu em 1954.
Seu primeiro romance “Ciranda de Pedra” começa a ser escrito no ano de 1952, época em que retornou a São Paulo.
O ano seguinte marca o falecimento de sua mãe. Nesse mesmo ano acontece também o lançamento do livro “Ciranda de Pedra” pelas edições O Cruzeiro, do Rio de Janeiro. Este livro, mais tarde, se transformou em telenovela transmitida pela TV Globo, em 1980.
Após seis anos, volta a lançar uma coletânea de contos, agora sob o título “Histórias do Desencontro”, publicada pela editora José Olympio, do Rio de Janeiro.
No início da década de 60, separa-se do marido, Goffredo, e começa, em 1961, a trabalhar como procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo.
“Verão no Aquário”, seu segundo romance, é publicado em 1962 pela editora Martins, de São Paulo. Nesse ano inicia a escrever seu mais célebre romance “As meninas”, inspirado no momento político atual do Brasil.
Publica anos seguidos (1964 e 1965), respectivamente, mais contos: “Histórias Escolhidas” e “O Jardim Selvagem”, ambos pela editora Martins.
Sua única adaptação de Machado de Assis foi a do romance Dom Casmurro, mediante convite de Paulo César Sarraceni, em parceria com Paulo Emílio Salles Gomes, para o cinema. Em 1993, esse trabalho foi publicado pela editora Siciliano, de São Paulo, sob o título “Capitu”.
Outro livro de contos da autora foi o famoso “Antes do Baile Verde”, publicado em 1970 pela editora Bloch, do Rio de Janeiro e que rendeu à autora o Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiro, na França.
O ano de 1973 foi palco para o lançamento de seu terceiro romance “As Meninas” que é um sucesso e arrebata prêmios literários de importância no país: o Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras; o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro; e o de Ficção, da Associação Paulista de Críticos de Arte.
Em 1977, novamente pela José Olympio, publica um livro de contos. Dessa vez, “Seminário de Ratos”. Neste ano, morre Paulo Emílio Salles Gomes, tendo por isso a escritora assumido a presidência da Cinemática Brasileira, que Paulo Emílio ajudara a fundar.
No ano seguinte, a editora Cultura, de São Paulo, lança “Filhos Pródigos”, coletânea de contos que seria publicada mais tarde com o título “A Estrutura da Bolha de Sabão”. Nesse mesmo ano, a TV Globo, leva ao ar um caso especial baseado no conto “O Jardim Selvagem”.
Em 1980, a Nova Fronteira do Rio de Janeiro, sua editora até 1897, publica “A Disciplina o Amor, contos. Em 1981, lança “Mistérios”, também contos, mas desta vez, contos fantásticos.
O ano de 1982 marca sua eleição para a Cadeira 28 da Academia Paulista de Letras e, em 24 de outubro de 1985, por trinta e dois votos a sete, é novamente eleita a ocupar a cadeira numa academia, mas, desta vez, na Academia Brasileira de Letras, fundada por Gregório de Mattos; na vaga de Pedro Calmo. Sua posse só ocorreria no dia 12 de maio de 1987.
Uma coletânea de textos seus organizados pelo jornalista Suênio Campos de Lucena, é lançada em 2002: “Durante aquele estranho chá – Perdidos e Achados”. Ainda nesse ano, recebe homenagem pelo conjunto de sua obra, por parte do governo de São Paulo. Que prestigia a escritora com nome de prêmio.
Mais recentemente, nos anos de 2004 e 2005, lança, respectivamente, “Meus Contos Preferidos e Meus Contos Esquecidos”. Também, em 2005, recebe o Prêmio Camões, o mais importante da literatura da Língua Portuguesa, no valor de 100 mil euros.
Na vasta literatura de Lygia, bem como os prêmios e homenagens recebidos por ela ao longo de sua trajetória ficcional, reforçam o talento dessa incrível escritora, que com sua desenvoltura impressionante para delinear enredos, quer verossímeis quer realistas mágicos, consegue conquistar leitores de várias faixas etárias, tendo sido comparada por um deles com Sherazade, o que, seguramente, não vem a ser exagero, visto que seu maior propósito é o de fazer o leitor embarcar em narrativas polêmicas e intrigantes, em que o elemento principal é a alma humana. Tudo isso mediante um estilo próprio que se estabelece numa atmosfera mágica, misteriosa e intimista.
2.    Aspectos do intimismo presentes na literatura de Lygia Fagundes Telles
A literatura de Lygia Fagundes Telles é bastante dinâmica quando se trata da transformação do real cotidiano em tragédia existencial. Seu dinamismo evidencia-se especialmente quando percebemos a maneira sutil com que utiliza o espaço externo apenas como pano de fundo para deixar fluir, em seguida, uma narrativa toda voltada os acontecimentos advindos da psiquê da personagem. Sejam lembranças, pensamentos obsessivos ou mesmo situações carregadas de misticismo ou loucura.
Seus contos estão sempre perscrustando o íntimo humano, intencionando assim, um passeio constante do leitor pela mente da personagem, que segue uma viagem onde o tempo e o espaço da trama são determinados apenas pela mente dela. Vejamos, por exemplo, o que diz Coelho acerca do exposto (in: Telles, 1971, p. 139):
Vários têm sido os temas desenvolvidos pela escritora, através de seus romances e contos. Porém, uma problemática permanece subjacente a todas: a barreira e a revelação do eu – profundo, tragédia cuja raiz parece ser, afinal, o medo daquela revelação. Com simplicidade, num estilo claro, objetivo e despojado; manejando fios dramáticos tecidos de acontecimentos quase banais, de gestos familiares e cotidianos, Lygia Fagundes Tellles consegue fixar com profundidade a tragédia anônima que habita no fundo dos seres humanos. Consegue captar a tragédia onde menos podíamos imaginar que ela estivesse.
Os personagens de suas tramas parecem viver em constante conflito interior, seja atormentados pela dor de sofrimentos antigos, seja remoendo conflitos interiores ou experiências frustradas. Sendo assim, como principal elemento de suas narrativas, surge a atmosfera que determina o teor das histórias, conforme diz Coelho (1971), nascidas de situações corriqueiras, cotidianas.
Envolvidas no dia-a-dia, pessoas aparentemente normais, são , no fundo, seres desajustados, que trazem em si uma constante angústia individual.
Outro aspecto interessante da prosa de Lygia é a sugestão autobiográfica presente em seus contos. Entretanto, não passa de impressão, visto que a autora consegue brilhantemente incorporar a personagem, deixando assim, vestígios de autobiografia, sem desviar-se, no entanto, de seu propósito primeiro, que é o de tratar dos conflitos humanos de forma criativa, inovadora. Sobre isso, Coelho (in: Telles, 1971, p. 138), diz:
Manejando com mão de mestre a arte do suspense, Lygia criou um estilo narrativo, ou melhor, criou um mundo de ficção em que a “atmosfera” joga um papel decisivo. É a “atmosfera” que emana dos seres ou objetos, ou que submerge, o elemento chave que domina o leitor e o mantém em suspenso até o final do relato.
Compromissada muito mais com sua experiência de ser humano do que com a consciência experimentalista exigida pelas atuais vanguardas, Lygia inscreve-se na linha daqueles escritores que (no dizer de Otávio Paz ao falar do estilo de A. Breton) se entregam mais à “linguagem da paixão do que – a paixão da linguagem”. Seu mundo de ficção de ficção dá pleno acesso ao leitor, não é dos que exigem lenta penetração e gosto treinado, espicaçado, adquirido arduamente.

Para Lygia, a instauração de uma atmosfera intimista, fundamentada em reminiscências ou alucinações, acontece quase que obrigatoriamente, visto que em sua vasta obra, quer em prosa quer em romance, há sempre a presença de enredos que fluem do âmago das personagens, seja em forma de lembranças, alucinações ou mesmo através de devaneios ou decepções.
Em conformidade com o exposto, Bosi (2004, p. 10), diz:
Mas há também a relação dramática com o passado, reino da posse e da perda. O convívio da consciência com a memória tem produzido um intimismo de situações novas, algumas ousadas e desafiadoras. Recuperar a imagem do que já foi dito mas que ficou sempre, é o esforço bem logrado da prosa ardente de Liggia (sic) Fagundes.

A conversão de assuntos polêmicos em temática literária, evidencia a habilidade que a autora tem para usar situações cotidianas como enredos para suas histórias, com tanta argúcia que incita o leitor a chegar logo ao final da história. Tudo sem tornar-se previsível ou desnecessariamente realista. Vejamos o que diz Coelho (In: Telles, 1975, p. 138-139), acerca do exposto:
Arte realista por natureza, a Lygia Fagundes Telles distancia-se, porém, de maneira absoluta do realismo horizontal e raso da ficção tradicional, onde a dimensão vivencial das personagens é apreendida apenas num psicologismo epidérmico. A técnica narrativa de Lygia é a que poderíamos chamar de “arte da alusão”, “arte da elipse” onde através de elementos isolados, aparentemente insignificantes, todo um drama pungente desoculta-se. É como se viessem à tona eflúvios de uma matéria em combustão lá no fundo, e, sutilmente, nos fosse penetrado.

Como se pode perceber, a autora estabelece uma literatura voltada para as questões humanas, mas sempre dentro de uma atmosfera de suspense, em que há destaque para a psiquê das pessoas, não para os elementos que surgem no espaço físico, muito embora estes não deixem de ser mencionados. Dessa forma concebemos a mente das personagens que surgem na prosa de Lygia, como elemento primordial para o desencadeamento de suas tramas.
3. Um mergulho no eu-profundo das personagens de Lygia Fagundes Telles nos contos “As cerejas” e “Eu era Mudo e Só”.
A imersão ao passado para reviver situações marcantes ou dramas cotidianos é um traço característico das personagens de Lygia Fagundes. Da mesma forma, pode-se nelas observar uma fuga constante da verdade, na tentativa de esquecer acontecimentos chocantes ou mesmo de mascarar uma realidade traumática.
O primeiro conto, “As cerejas” traz uma personagem envolta em lembranças, numa confusão que não lhe permite distinguir fatos reais, de apenas sonhos.
O conto traz a personagem, já adulta, entre lampejos de recordações e profundos questionamentos acerca de acontecimentos da infância. Nem mesmo da existência das pessoas a com quem convivera estava certa. A seguir trecho que abre o conto, ilustrando esse momento de conflito interior, vivido pela personagem:
Aquela gente teria existido? Madrinha tecendo a cortina com um anjinho a esvoaçar por entre rosas, a pobre Madrinha, sempre afobada, piscando os olhinhos estrábicos, ‘vocês não viram onde deixei meus óculos?’ A preta Dionísia a bater as claras de ovos em ponto de neve, a voz ácida contrastando com a doçura dos cremes, ‘esta receita é nova...’ Tio Olívia enfastiada e lânguida, abanando-se com uma ventarola chinesa, a voz pesada indo e vindo ao embalo da rede, ‘fico exausta no calor...’ Marcelo muito louro – por que não me lembro da voz dele?... E no escuro que se fez, veio como resposta o ruído das cerejas se despencado no chão (LYGIA FAGUNDES, 1992, p. 4 e 5).
Em seguida, com a presença de um elemento real da época, o broche de cerejas, a personagem embarca num retorno à infância tendo este como objeto desencadeador de suas lembranças.
Lembra da casa, de sua localização geográfica e da atmosfera monótona que pairava sobre o lugar. Olhando para as cerejas e sua cor berrante, reflete que daquilo tudo, só restara elas: “Ficaram as cerejas, só elas resistiram com sua vermelhidão de loucura” (Op cit, p. 6).
Depois, lembra da chegada inesperada de tia Olívia que, a exemplo de Marcelo, chegara subitamente, preenchendo tanto quanto tumultuando os dias na casa da Madrinha. Ver trecho:
- É Olívia! – exclamou Madrinha. É a prima! Alberto escreveu dizendo que ela viria, mas não disse quando, ficou de avisar. Eu ia mudar as cortinas, bordar umas fronhas e agora!... Justo Olívia. Vocês não podem fazer idéia, ela é de tanto luxo e a casa aqui é tão simples, não estou preparada, meus céus![...] – Como se já não bastasse esse menino que também chegou sem aviso... (op cit, p. 6)
Lembrou também dos momentos de encanto que a chegada dos dois lhe trouxera:
Aproximei-me fascinada. Nunca tinha visto ninguém com aqueles olhos pintados e com aquele decote assim fundo.
.........
Marcelo também tinha estado na Europa com o avô. Seria isso? Seria isso que os fazia infinitamente superiores a nós?... (op cit, p. 7-8)

Também o sentimento de inferioridade que a magnitude de Marcelo e Tia Olívia lhe causara ressurge em sua mente:
...Diante de Marcelo e Tia Olívia, só diante dos dois é que pude avaliar como éramos pequenos: eu, de unhas roídas e vestidos feitos por Dionísia, vestidos que pareciam as camisolas das bonecas de jornal que Simão recortava com a tesoura do jardim. Madrinha, completamente estrábica e tonta em meio das suas rendas e filés. Dionísia, tão preta quanto enfatuada com as tais receitas (op cit, p. 7).
Depois, as lembranças mais marcantes vão avolumando-se em sua mente como que num clímax, em que gradativamente vão ascendendo os acontecimentos. Primeiro a cena em que Marcelo lhe flagra tentando matar um escorpião:
Abri a caixa de sabonete escondida sob o tufo de samambaia. O escorpião foi saindo penosamente de dentro. Deixei-o caminhar um bom pedaço e só quando ele atingiu o centro da varanda é que me decidi a despejar a gasolina. As chamas azuis subiram num círculo fechado. O escorpião rodou sobre si mesmo, erguendo-se nas patas traseiras, procurando uma saída. A cauda contraiu-se desesperada. Encolheu-se. Investiu e recuou em meio das chamas que se apertavam mais.
- Será que você não se envergonha de fazer uma maldade dessas?
Voltei-me. Marcelo cravou em mim o olhar feroz. Em seguida, avançando para o fogo, esmagou o escorpião no tacão da bota.
- Diz que ele se suicida, Marcelo...
- Era capaz mesmo quando descobrisse que o mundo está cheio de gente como você (op cit, p.9).
Depois revive a imagem chocante de tia Olívia (a quem tanto admirava), com Marcelo (por quem se apaixonara), numa relação sexual:
Como um corpo só os dois tombaram no divã, tão rápido o relâmpago e tão longa a imagem, ele tão grande, tão poderoso, com aquela mesma expressão com que galopava como que agarrado à crina do cavalo, arfando doloridamente na reta final (op cit, p. 11).
Agora, a febre interminável que lhe acometera causando-lhe delírio e dor, lhe ocorria:
- Até hoje não sei quantos dias me debati embraseada, a cara vermelha, os olhos vermelhos, escondendo-me debaixo das cobertas para não ver por entre clarões de fogo milhares de cerejas e escorpiões em brasa, estourando no chão (op cit, 13).
O conto é escrito com o enredo desenrolando-se através das lembranças da personagem-narradora. Escrito de forma não linear, com suspensões na narrativa para que a personagem retorne no tempo. Vejamos um exemplo curioso de suspensão em que a narrativa é interrompida pela antecipação de um acontecimento: “... Basta abrir a gaveta: algumas foram roídas por alguma barata e nessas o algodão estoura, empelotado, não, tia Olívia, não eram de cera suas cerejas vermelhas” (grifos nossos) (Op cit, p. 6).
A pergunta à resposta mencionada no trecho anterior, surge depois: “- É de cera? – perguntei tocando-lhe uma das cerejas” (Op cit, p. 7).
Também a presença de elementos alusivos, como as cerejas vermelhas, que sugerem toda a sensualidade da personagem Olívia, assim como a forma de Marcelo montar a cavalo, comparada pela menina à relação sexual dos dois.
Há ainda uma espécie de rito de passagem na cena que retrata o escorpião pegando fogo pois, a partir dali, a menina estaria numa outra fase da vida: mais consciente e madura.
Neste conto Lygia mostra sua habilidade em desenvolver narrativas na linha de sondagem psicológica, em que as personagens estão sempre imersas em lembranças dramáticas. Vejamos o que diz Coelho (In: Lygia, 1971, p. 104) sobre o conto em questão:
Um dos contos de Lygia Fagundes Telles em que o poder recriador da memória é explorado com mão de mestre, este “As cerejas” (1960) tem também como fulcro temático um caso de desencanto com a realidade aparente da vida.
Virgínia vive esse drama em “Ciranda de Pedra” (1955), Raíza vive-o mais intensamente em “Verão no Aquário” (1963)...
De Virginia, de Ciranda [...], esta menina guarda o mesmo olhar indagativo que se enrosca, aflito, em tudo e todos. Guarda também as “unhas roídas” e o gesto de destruir bichos (gesto que aqui lhe é censurado por Marcelo e que em Ciranda... é censurado por Conrado). ‘A cena do escorpião’...
O conto seguinte, “Eu era Mudo & Só”, traz semelhantemente ao conto “As cerejas”, o personagem-narrador, numa retrospectiva mental. A princípio, ele faz um relato de sua vida conjugal em que mostra a aparente perfeição de seu casamento, sob uma profunda ironia. Depois embarca numa retrospectiva para a época em que conheceu a esposa, retomando a seguir a reflexão irônica sobre seu casamento. Ver trecho (In: Antes do Baile Verde, 1986, p. 171):
Ela sorriu e eu sorrio também ao vê-la consertar quase imperceptivelmente a posição das mãos. Agora o livro parece flutuar entre seus dedos tipo Gioconda. Acendo um cigarro. Tia Vicentina dizia sempre que eu era muito esquisito. ‘Ou esse seu filho é meio louco, mana, ou então...’ Não tinha coragem de completar a frase, só ficava me olhando, sinceramente preocupada com o meu destino. Penso agora como ela ficaria desapontada se me visse aqui nesta sala que mais parece a página de uma dessas revistas de arte de decorar, bem vestido, bem barbeado e bem casado, solidamente casado com uma mulher divina-maravilhosa: quando borda, o trabalho parece sair das mãos...
No trecho destacado anteriormente somos levados a crer que trata-se de um relato real de alguém bem sucedido no casamento. Algo como uma declaração de amor e/ou confirmação da felicidade conjugal.
Mas, ao contrário disso, o trecho a seguir nos revela a insatisfação do personagem diante do desvelo da mulher, que lhe sufoca:
- Acho que gostaria de sair um pouco.
- Para ir aonde?
‘Tomar um chope’ – eu estive a ponto de dizer. Mas a pergunta de Fernanda já tinha rasgado pelo meio minha vontade. A primeira pergunta de uma série tão sutil que quando eu chegasse até a rua já não teria vontade de tomar chope, não teria vontade de fazer mais nada. Tudo estaria estragado e o melhor ainda seria voltar (Op cit, p. 172).
E a narrativa prossegue sob um constante clima de ironia, onde se estabelece também uma atmosfera contraditória entre o literal e o inferencial:
Ela sabe o que costumo e o que não costumo. Sabe tudo porque é exemplar e a esposa exemplar deve adivinhar. Mordisco o lábio devagarinho, bem devagarinho até a dor ficar quase insuportável. Adivinhar meu pensamento. Sem dúvida ela chegaria um dia a esse estado de perfeição. E nessa altura eu estaria tão desfibrado, tão vil, que haveria de chorar lágrima de enternecimento quando a visse colocar na minha mão o copo d´água que pensei que ia buscar (Op. cit, p. 173).
Depois, a exemplo do conto “As cerejas” a narrativa segue num ritmo ascendente, no que diz respeito aos sentimentos que fluem do âmago do personagem:
Gisela, minha filha. Já sabia sorrir como a mãe sorria, de modo a acentuar a covinha da face esquerda. E já tinha a mesma mentalidade, uma pequenina burguesa preocupada com a aparência, ‘papaizinho querido, não vá mais me buscar de jipe!’ A querida tolinha sendo preparada como a mãe fora preparada, o que vale é o mundo das aparências. Virtuosas, sem dúvida, de moral suficientemente rija para não pensar sequer em trair o marido, ‘e o inferno’ De constituição suficientemente resiste para sobreviver a ele, pois a esposa exemplar deve morrer depois para poupar-lhe os dissabores (Op cit, 176).
No trecho anterior já não há mais ironia, mas a manifestação explícita da crítica à mulher e à filha. E no trecho seguinte, o que se observa é a insatisfação total com o casamento:
... Depois, com o passar do tempo, a metamorfose na maquinazinha social azeitada pelo hábito: hábito de rir sem vontade, de chorar sem vontade, de falar sem vontade, de fazer amor sem vontade... O homem adaptável, ideal. Quanto mais for se apoltronando, mais há de convir aos outros, tão cômodo, tão portátil. Comunicação total, mimetismo: entra numa sala azul fica azul, numa vermelha, vermelha, um dia se olha no espelho: de cor eu sou? Tarde demais para sair pela porta afora. E desejando, covarde e miseravelmente desejando que ela se volte de repente para confessar: ‘Tenho um amante’. Ou então que, ao invés de enfiar a espátula no livro, enterre-a até o cabo no coração (Op cit, p. 179).
Por fim, lembra da época em que namorava a esposa e da maneira como fora fisgado, inclusive pelo sogro.
E eu? Entendo? Penso no senador. Quanto tempo levei para entender aquele sorriso. Quanto tempo. Estávamos os dois frente a frente, meu futuro sogro e eu. Ele brincava com a corrente do relógio e me olhava disfarçadamente, também tinha esse tipo de olhar duplo (Op cit, p. 178).
Agora um sentimento de importância total sobre aquela situação lhe inundava e comparava sua vida a um cartão-postal, em que a beleza aparente escondia a realidade. Via-se preso, sem saída:
Abro os olhos. Eu também estou dentro do postal. Devo estar envelhecendo para começar a soma das compensações. Mas a alegria simples de sair em silêncio para visitar um amigo. De amar ou deixar de amar sem nenhum medo, nunca mais o medo de empobrecer, de me perder, já estou perdido! Poderei tomar um trem ou cortar os pulsos, sem nenhuma explicação? Através do vidro as estrelas me parecem incrivelmente distantes. Fecho a cortina (Op cit, p. 181).
Vejamos o que diz Coelho (In: Lygia, 1971, p. 54-55), a respeito do conto em questão:
Narrativa (escrita em 1958) em que, sob uma impressão de doce calma e beleza, Lygia Fagundes Telles vai fazendo emergir à tona do plano episódico a tragédia oculta de um homem aparentemente feliz e realizado na vida, mas na verdade totalmente frustrado em seus mais autênticos impulsos.
É pelo relato do próprio herói que seu verdadeiro drama vai sendo aos poucos desvendado. Note-se que, nesse desvendamento, a escritora utiliza um processo que poderíamos chamar de irônico. Isto é, o narrador fala-nos, como que embevecido da beleza e das excelsas qualidades de sua esposa; [...] E sutilmente, sem que nos apercebamos como, todo aquele encanto vai-se metamorfoseando na intolerável aniquilação de sua personalidade, vampirizada pelo egoístico e monstruoso zelo de uma ‘esposa perfeita’...
Ao chegarmos ao final do conto, demo-nos conta de que a vida daquele homem transformara-se em um verdadeiro ‘cartão-postal’, isto é, em algo belo, perfeito, sem vida.
Nos dois contos podemos perceber características semelhantes, tanto em relação à narrativa quanto em relação à personagem. No caso da narrativa, há a ausência de linearidade pela suspensão e pela antecipação de fatos, a exemplo do conto “As cerejas”. Sobre os personagens, a mesma insatisfação e decepção com a realidade; a recorrência ao passado, buscando respostas ao presente. Tudo isso confirma a forte tendência da autora para desenvolver narrativas voltadas para a psique do ser humano.
A seguir, Bosi (1991, p. 474) fala sobre essa peculiaridade de Lygia Fagundes Telles: “Lygia Fagundes Telles [...] fixa, em uma linguagem límpida e nervosa, o clima saturado de certas famílias paulistas cujos descendentes já não têm norte...”
É nesse contexto que observamos nos dois contos aqui comentados, a construção do enredo tendo como principal desdobramento conflitos anteriores das personagens, provenientes do ambiente familiar, o que vem a constatar a freqüência da sondagem psicológica presente na obra da autora.

Considerações Finais

            A literatura intimista nem sempre acontece no plano real em que se manifestam lembranças suscitadas pelas inquietações do eu-interior. Ela surge também através do sonho e do irreal. Ou seja, nem sempre traz um enredo em que a base assenta no verossímil. Em Lygia Fagundes Telles, a literatura psicológica se dá tanto no plano da verossimilhança quanto no plano do onirismo e do irreal. Neste trabalho tivemos como objeto de nossa análise a prosa intimista voltada para o real, mas podemos aqui mencionar, ainda que a título apenas de ilustração, contos da autora em que a narrativa surge através de sonhos ou alucinações da personagem, ou ainda com fatos que fogem do estado real. Tratam-se dos contos “As formigas”, “O encontro”, “Emanuel” e a “Caçada”, todos pertencentes ao livro de contos “Mistérios” (1987).
            Por meio da presente pesquisa pudemos, de fato, concluir que a autora desenvolve com grande aptidão uma prosa toda voltada para a introspecção do personagem, quer seja voltada para o realismo interior, em que há uma minuciosa presença da consciência, quer sob a transfiguração da personagem, quando se evidenciam tons misteriosos e de sobrenaturalidade, ou ainda situações fantásticas.
            Em nossa avaliação, o interesse da escritora pela questão introspectiva, demonstra sua análise profunda acerca do comportamento e dos sentimentos humanos, mas com a preocupação de adaptar os costumes ao meio e à época retratada.
            Essa preocupação se dá muito no âmbito da linguagem usada, ao que é importante acrescentar ter ela reescrito contos seus e substituído deles termos que se anteriormente eram expressivos, na época em que os substituíra não sugeriam mais nada.
            Nesse pormenor, acentuamos que o encantamento que nos traz a ficção de Lygia vem da forma como conduz sua linguagem narrativa. Dessa maneira, a atração que tem pelas questões humanas, mesclada ao seu talento de comunicar objetivamente o que deseja, garante uma narrativa absorvente e profundamente sutil, como no conto “Eu era Mudo e Só”, em que por trás do literalmente expresso há uma segunda linguagem.
            Por fim, paralelamente ao seu talento para narrar e a sua atração pela complexidade humana, há um imenso poder criador, que faz com que cada nova narrativa seja singular, muito embora haja também muitas semelhanças entre as mesmas. Por tudo isso é que a autora é hoje reverenciada como sendo uma das maiores contistas brasileiras, tanto nacional como mundialmente.
Bibliografia
BOSI, Alfredo (org.) O Conto Brasileiro Contemporâneo. 17. ed. São Paulo: Cultrix, 2004.

_____.História Concisa da Literatura Brasileira. 3. ed. São Paulo: Cultrix, 1981.

EMANUEL. In: Mistérios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

_____. A caçada. In: Mistérios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

_____. O encontro. In: Mistérios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

_____. As formigas. In: Mistérios. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

TELLES, Lygia Fagundes. Organização, estudo e notas da professora Nelly Novaes Coelho. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971.

_____. As cerejas. São Paulo: Atual, 1992.

_____. Eu era Mudo e Só. In: Antes do Baile Verde. 9. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

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