quarta-feira, 26 de março de 2014

Inerme



Hoje eu sonhei que estava nua, desprotegida, exposta, sem defesa, sem saída.Com as minhas mãos eu tentava cobrir minha nudez; mas era em vão, minhas mãos não cobrem toda a minha extensão.

Então eu andava nua, eu vagava pela rua. E era tudo muito desconfortante, porque era dia, e o Sol, que tudo irradia, refletia meus cabelos, meus pelos, minha nudez involuntária, e eu me sentia mais e mais desprotegida, ultrajada, invadida.

O jeito era me esconder, então busquei as plantas e, em meio a sua roupagem verde, eu me sentia um camaleão começando uma mutação. Minha cor branca me fez meio furta-cor junto à vegetação mais clara e, naquela aparição tão rara, eu era como um bicho perdido do seu próprio nicho, buscando adaptação.

Mais um pouco, e se fez tarde, e o Sol, mais que cálido, dourava meu corpo pálido, e eu busquei logo uma sombra. Fui andando lentamente, sem esquecer minha fraqueza, mas a sede, com certeza, me fazia pensar muito em água, então, esquecendo a mágoa, eu fui andando sozinha e, como uma ribeirinha, encontrei uma nascente, mas o Sol já não era tão quente. Entrei, mergulhei no rio. Eu era como um peixe deslizando rio abaixo, então me vesti de riacho, me senti mais protegida.

Logo, veio a negra noite e eu me pus a pensar. A noite traz o pensamento, mesmo que não seja a contento. E comecei a refletir na fragilidade, que me fez sentir mais desnuda do que se fosse de veste. Olhava buscando o leste, tentando me localizar. E pensei coisas de signo, mas era tudo tão pouco, e eu nem consigo acreditar nas coisas deste mundo louco. Eu só pensava que não era digno expor assim qualquer pessoa, e eu me sentia à toa, como se eu nada valesse. Como se fosse um objeto para  quem alguém apontasse e escolhesse numa vitrina colorida, e que minha cor esmaecida lhe tivesse chamado a atenção.

Então, no sonho eu dormia e da nudez me esquecia. Sonhava com tantas coisas... E era um sonho variado, desses que de nada se lembra quando se está acordado. Mas, enfim, eu despertei. Pulei da cama e pensei:" Foi apenas mais um sonho; não era real acordei!". Mas quando para baixo olhei de supetão, vi minha alma no chão: "era pesadelo"? Não sei.

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