domingo, 2 de março de 2014

Falso Repúdio


Eu refuto o seu talvez. 

Porque o talvez anda  sempre em linha curva.
A indecisão não tem embalo.
É cinzenta, turva; 
Semeia a dúvida,
Em seu constante adiar.
Eu refuto o talvez.
O da fala.
O do olhar. 
A ausência de vida em seu vacilar.
Os “sins” e os “nãos” têm personalidade,
Mesmo que, às vezes, desprovidos de verdade.
Bravo ao não!
Eia ao sim!
“Nãos” são corajosos.
“Sins”, melodiosos.
“Talvezes” são fujões, turrões,
Que permanecem pé ante pé,
Sempre se arrastando 
e tremem; bambos de coragem
para dizerem com precisão:
‘Sim ou não’.
Eu refuto a função “duvidosa” do talvez.
O modesto opinar suspenso e suas contradições!
Fora com o talvez! 
A vida pede decisão.
 “Será? Quem sabe...”
Na dinâmica da vida o talvez não cabe.
O seguro, o veemente
Deve existir livremente,
Sem entraves.
“Talvez” não deve ter mesmo vez.
Corte aos vacilantes advérbios!
Aos modificadores “duvidosos”.
Corte aos meios termos frasais! 
Corte aos “talvezes” e sim aos “nãos”.
Sim também aos “sins”.
Corte ao talvez e aos seus provérbios
Arcaicos, idosos...
Ceifem-nos sem pena e sem dó.
Amarrem em seus pescoços uma pedra de mó.
Sufoquem os seus ais.
Lancem-nos duma vez
Rio abaixo.
Eles e seu efeito laico.
Quero ver quando o talvez tiver fim,
E tudo se vestir de prosaico.
O que será do mundo, de você e de mim.

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