domingo, 11 de novembro de 2012

Não ameis à distância (Rubem Braga tinha razão)



O mundo hoje está simplesmente abarrotado de gente. Conforme o Fundo de População das Nações Unidas de 2010 (FNUAP), a população mundial atingiu a marca de quase 7 bilhões  de habitantes distribuídos pelos  seis continentes. Uma distribuição desequilibrada, visto que há continentes muito mais populosos que outros, pelos mais variados motivos. E quando se pensa que nos continentes há vários países, e nos países várias regiões formadas por vários estados que formam várias cidades, e que todas essas divisões territoriais determinam as distâncias físicas que existem de um lugar para outro, podemos pensar no erro de se ter um amor à distância.
 As pessoas vivem situações climáticas diferentes, se comunicam em línguas diferentes, têm hábitos de alimentação diferentes, enfim, têm culturas diferentes. Traçam caminhos diferentes e estabelecem contato com diversas pessoas também diferentes. Mas em duas coisas boa parte dessas pessoas são exatamente iguais: têm uma vida demasiadamente agitada: não possuem tempo para cuidar da família, para cuidar da própria saúde e/ou para o lazer, e vivem mergulhadas em seus computadores pessoais ou nos profissionais. Conversam com pessoas de todos os lados do mundo. Pessoas de várias nacionalidades.  
Apesar de a comunicação atual ser praticamente imediata, bem diferente, por exemplo, das cartas, que antigamente, levavam dias para chegar, as conversas estabelecidas através dos bate-papos de sites de relacionamentos, muitas vezes, não traduzem exatamente a verdade. Muitas pessoas acabam por omitir dados de sua vida ou acabam por fingir ser alguém que não são favorecidas pela distância.
Como se vê, a eficácia e a rapidez atuais na comunicação escrita não são determinantes para a sinceridade no que se diz.  Mesmo que se possa dizer o que se sente, as pessoas simplesmente fingem sentir o que dizem.  As frases escritas cheias de símbolos, ícones de expressões e de sentimentos nem sempre comunicam o que realmente se sente no momento em que se escreve. Suas palavras mascaram muitas vezes a intenção real. E se a pessoa que está do outro lado for ingênua, será, sem dúvida, uma vítima em potencial da má fé e do engano pela pessoa que lhe tenta seduzir.
Mesmo que as palavras ou a própria imagem da pessoa sejam cheias de boa intenção, de elogios e promessas, não se tem a realidade que a presença física acaba por trazer à tona. Por mais que a evolução seja grande, ela não permite que se veja o interior das pessoas através da tela do computador. O amor à distância, intermediado pelo benefício da internet, não resiste com o simples fato de se ter a imagem projetada na tela, nem com artifícios como ícones de amor: corações quebrados ao meio, olhos tristes, beijos estalados... 
Então, dia a dia, a sua imagem na tela vai caindo na rotina e o bate-papo vai ficando desinteressante, de forma que as pessoas acabam por procurarem outras pessoas para estabelecerem outras conversas, outras estórias, outras promessas, e assim enchem suas vidas de alguma motivação, mesmo que isso signifique brincar com os sentimentos alheios. Por essas e por outras questões é que  mesmo  se discordando de Rubem Braga, quando este diz que o sentimento que se escreve hoje pode não ser o mesmo daqui a uma semana, ao falar do amor por correspondência, concorda-se com o autor quando ele diz que o amor à distância é impossível. Mas o que dizer de pensamentos como este do escritor francês de Marcel Proust: “Para quem ama, não será a ausência a mais certa, a mais eficaz, a mais intensa, a mais indestrutível, a mais fiel das presenças"? Como nada na vida é absoluto, se deve acreditar que possa haver exceções na questão do amor à distância, e que algumas vezes o amor se sobreponha ao fracasso, ao engano atribuídos muitas vezes à distância física, à ausência do outro.

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