terça-feira, 9 de outubro de 2012

O pedinte




    Ela tentava há tempos colar os pedacinhos de sua alma tão destruída. Sempre recomeçando sem grandes planos… Caminhando resiliente, tentando mudar a vida para melhor.
    Sentia-se  mais sagaz para identificar o perigo, as situações enganosas. Ia sempre cautelosa, pé atrás, enclausurada num verdadeiro ostracismo. Seus olhos e seu cérebro ligados, sempre atentos…
    Bateram-lhe à porta uma, duas, tantas vezes! Porta fechada: Cuidado, cão raivoso! Isso mantinha os curiosos e interessados do lado de lá. Bem longe!
    Vendedores, jornaleiros, doceiros e toda a sorte de oferecedores prometendo sempre os melhores produtos, serviços, favores…
    Mas um dia lhe batera à porta um pedinte. Este, embora tão carente, lhe oferecia algo desinteressadamente, ao invés dos outros que queriam sempre algo em troca.  Era um pedinte atípico, oferecia sorrisos, palavras doces, reconfortantes… E, embora tivesse recebido muitas vezes a porta na cara ou falado sozinho, ele não desistia. Parecia alguém tão especial, tão diferente…
   Às vezes o pedinte que doava sumia, dando a entender que tinha desistido do seu intento. Mas, de repente, ele voltava e tentava receber alguma atenção, embora nunca recebesse a porta inteiramente aberta.
   Parecia que o fato de nunca ter visto a porta inteiramente aberta para si o incentivava mais e mais  a persistir oferecendo sua bondade imensurável, praticando suas muitas virtudes.
   Depois de um longo período de portas na cara e de portas entreabertas, ela resolveu dar ouvidos ao tal pedinte. Finalmente ele a tinha convencido de seus atributos e, agora, confiante, lhe abria a porta sem restrições. Não, ele não precisava mais bater à sua porta. Ela lhe estava inteiramente aberta. Agora, ela pensava o quão importante para si era o pedinte doador.
   Porém, um fato curioso aconteceu após a abertura total da porta; o livre acesso… O tal pedinte passou a ir pouco à casa dela. Ia às vezes. Ela pedia justificativa, algo que a explicasse aquele episódio curioso. Mas, as atitudes do pedinte agora eram tão diferentes… Ele até se zangava com ela e ameaçava nunca mais voltar.
   Agora, ele não mais doava, tampouco pedia. Ele exigia muita coisa em troca para ir à casa dela. Ela estava estupefata, indignada, confusa…
   Um dia, quando se preparava para sair, avistou do outro lado da sua rua o pedinte batendo à porta de outra casa, com seu bom e velho sorriso e suas mãos em sinal de quem oferecia, mas jamais pedia algo em troca.
   Ela, imediatamente voltou para casa e retirou a placa que avisava sobre o perigo de um cão raivoso. Voltou, em seguida, com uma placa que dizia: “Cuidado, cerca elétrica”!

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