quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A desconstrução da madrasta





Anita era Ana Clara, filha sem mãe, com pai e madrasta. Quando o nome madrasta vem a nossa mente, nos vem junto a ideia de uma mulher má que não sabe ser mãe. Bom, os contos infantis se encarregaram disso. Tanta madrasta má existiu neles. No quesito muita maldade não se sabe ao certo se a arte imitou a vida ou se a vida imitou a arte. O fato é que algumas, melhor dizendo, muitas madrastas têm sido muito más.Existe até uma brincadeira com a primeira sílaba do nome: má-drasta. Também fazem alusões às boas madrastas: boa-drasta. Boa madrasta? Isso é possível? Mas é claro que é! A história de Ana Clara, nos mostra que sim.
Bom, Ana Clara, tornou-se Anita após a chegada da segunda mulher de seu pai. Perto de completar três anos sem esposa, Gaudêncio conheceu Lucita e então apaixonou-se. Estava sentindo-se tão sozinho e ela viera na hora certa. Já havia sofrido demais a perda da sua esposa. Ana Clara, ainda pequena, precisava de uma mãe. A ideia de casar de novo lhe assustava, mas não mais que a solidão. Ele resolveu casar logo. Dispensava aprovações.
E foi num domingo, ao fundo do seu quintal, que deu-se a cerimônia. Ana Clara, com um ramo florido em mãos, servia de dama. Lucita, miúda e feliz, com um vestido de cor clara. Ela pretendia ser uma mãe para a menina. Gaudêncio, se desmanchava em sorrisos nervosos . Ambos queriam um lar, uma família. Em meio à antipatia de alguns e a críticas de mais uns tantos, pretendiam ser felizes com a menina.
Final da cerimônia, Lucita em meio à bagunça, recolhe Ana Clara que dorme em uma cadeira. Larga os convidados, o recém marido, e a carrega para casa no colo. Gaudêncio, entretido em uma conversa com os parentes. Outros convidados a assistirem televisão ou a se fartarem com o bolo. A mãe do noivo falando alto ao telefone. O pai e o irmão de Lucita, únicos parentes seus presentes, um pouco tímidos, numa mesa ao fundo. Sem mãe desde os dois anos de vida Lucita agradece a ausência proposital da madrasta.
Enquanto Lucita cuida da menina, pensa em recomeçar a vida. Quer fazer tudo diferente. Olhando o pai e o meio-irmão pensa com amor na única família que realmente teve. Pega um livro de histórias e senta junto à cama de Ana Clara, agora por ela, Anita. Descansa a cabeça na cabeceira da cama. Fecha os olhos tentando apagar parte de sua história. A página aberta é a da história da “Gata Borralheira”. A menina agarra o livro e lhe pede que conte uma história bonita. Lucita está olhando para ela com olhos de mãe. Ajeita sua cabeça no travesseiro, cobre seu corpo com o lençol. Começa a contar uma história. Passa as páginas sem ler. Ela conta uma outra história. Pensa e feliz conta de outra forma a história da Cinderela. Pouco a pouco ela desconstrói a história da madrasta.

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