sábado, 26 de novembro de 2011

Ventania


Naquela tarde, as folhas das árvores que habitavam o quintal de Bernadete caíam mais que o normal e as roupas do varal moviam-se de forma frenética. Mogli, o cachorrinho salsicha, brincava com os garranchos que praticamente voavam com a força do vento.
Berna, junto à janela da frente, apavorada, olhava a estrada na esperança de que alguém surgisse para salvá-la do estranho fenômeno. Estava ali ansiosa e trêmula, quase desesperada quando viu seu cachorrinho sendo arrastado pelo poderoso vento.
Mogli, com as patas traseiras enfiadas no chão de terra, gania pedindo socorro. Um monte de garrancho flutuava como que atraído por um ímã. A calça vermelha de malha, a preferida de Berna, também estava naquela órbita esquisita e os lençóis pareciam enormes guardanapos voando ao vento,
O interessante era que nada dentro da casa se movia. Tampouco ao redor do quintal de Berna. Aquela força estranha estava  somente no seu quintal. A menina não sabia o que fazer e chorava baixinho debruçada na janela.
De repente, ela ouve o barulho de uma porta a se abrir. Corre para ver quem havia chegado, mas não encontra ninguém e, sim,  as coisas da casa flutuando. Pronto, aquela estranha órbita atingia agora a parte interna da casa. Não havia o que fazer. Correu e se trancou na dispensa, um quartinho que ficava fora da casa.
O cachorro havia sumido e o quintal estava cheio de folhas. Não no chão, mas voando em torno da casa na altura da janela. O varal havia caído e as roupas, desaparecido. Nenhuma voz ou ruído para confortá-la. A menina queria  sentir-se acompanhada, dividir aquela situação com alguém, mas nada, Ninguém chegava.
Sentia fome e sede, mas não queria ser arrastada pelo vento potente. Resolveu deitar-se ali no chão batido. Tinha medo de algum bicho lhe picar. Pensou então que o vento havia levado todos os bichos  para longe. Deitou e dormiu.
Acordou pela manhã, assustada. Olhou em volta, reconheceu seu quarto. Tudo nos lugares. Correu para a sala, ouviu as vozes da família. Foi para a cozinha, todos lhe deram bom dia. Ela não tinha palavras. Estava vendo tudo normal. Levantou-se e foi até a porta dos fundos. Olhou o quintal. Buscou o cachorro. Ficou tonta, pediu ajuda ao pai. Pensou que podia ter tido um sonho.
De repente, ouviu latidos lá fora.  Procurou segui-los com os olhos.  Viu Mogli em cima de uma árvore, alojado num galho, pedindo para descer. Lá fora o pai dando tchau e indo para o trabalho. Sua mãe e irmãos ainda tomando café. Felizmente não ficaria sozinha.
Olhou novamente o quintal, com receio.  Mais ao fundo do terreno avistou algo. Aproximou-se um pouco e viu um catavento  enorme fincado no chão junto ao cacimbão. Buscou o cachorro na árvore e o encontrou na frente da casa, brincando com um garrancho que insistia em flutuar.

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