quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Rui Tavares




"EU, O SABIÁ E A FIGUEIRA"


Frondosa figueira, árvore antiga
galhos
longos, copados, a balançar
pousado entre as folhas, na sombra amiga
um
sabiá, à tardinha, vem cantar.

Eu venho também, mas cantar não venho
à
tardinha eu venho só para escutar
pois infelizmente eu não tenho
o dom
sublime de cantar.

Cantaria, como o sabiá, se o dom tivesse
à minha
amada, como a dele ele canta
subiria no galho mais alto, se pudesse
dessa
figueira linda que me encanta.

Na carência que tenho desse canto
pois
da voz maviosa sou carente
penso, pois pensar eu posso no
entanto
recostado neste tronco docemente.

Ao som suave da voz do
passarinho
fecho os olhos e nela penso agora
enquanto no galho o sabiá
sozinho
chama a amada que foi embora.

O sabiá entoa um canto de
saudade
enquanto no horizonte o Sol se punha
somos dois chorando a
realidade
e a velha figueira por testemunha.

O sabiá pousado canta de
tristeza
é a sua maneira de poder chorar
já minhas lágrimas não tem
beleza
pois choro sem saber cantar.

Eu, o sabiá e a figueira
temos
um pacto natural de união
e à tardinha, pela vida inteira
choramos juntos
a nossa solidão.


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