sábado, 5 de fevereiro de 2011

Emanuel (Lygia Fagundes Telles)





- Emanuel -- eu respondo. E não digo mais nada porque sinto que ninguém está acreditando em mim, ninguém acredita nisso, que tenho um amante e que esse amante tem olhos verdes, um Mercedes branco e que se chama -- Emanuel -- repete Afonso. -- Tive um colega com esse nome mas parece que morreu. Você disse que ele vem te buscar?
Loris está tentando servir uísque mas o uísque não sai da garrafa que ela sacode. Se sacode também de tanto rir:
-- Num Mercedes Benz branco, não é finíssimo? Conta mais, Alice, todo mundo quer saber os detalhes, detalhes!
Quero alcançar o cinzeiro no centro do tapete e o cinzeiro está longe demais, tenho que me estender no almofadão num movimento que poderia ser elástico, gracioso e meu gesto é duro e minha voz fica postiça, todos ali à vontade pelo chão, só eu assim tensa como um faquir em pregos. Serpentes deslizando no caixão.
-- Peguei uma vez numa cobrinha. Não, não era viscosa, era apenas fria -- digo e ninguém está interessado em saber o que senti quando peguei na cobra. -- Eu queria um conhaque.
Afonso puxou para mais perto o carrinho de bebidas. "Estou me lembrando de uma piada", diz abrindo o riso mas sei muito bem que a piada sou eu. Me ofereceu o copo fazendo uma reverência.
-- Pronto, menina.
Cínico. Está se divertindo à beça, nem ele nem Loris nem Solange -- ninguém acreditou. Nessa história de amante. Mas por que não acreditam, por quê? Sou assim tão horrenda, tão repugnante? Hein? Me respondam, por quê? Um homem de olhos verdes e Mercedes branco, ele vem me buscar no Mercedes, digo e Loris quase se engasgou no uísque e Afonso, o cínico. Até o homenzinho de cravo no peito também fez aquelas caras, mal me conhece e já se incorporou ao grupo, o anão. Um anão cretino, ridículo, ô Deus! Tomo um largo gole, respiro, preciso me acalmar, não é assim não, puro exagero, histeria, o homenzinho nem me notou, essa mania de perseguição, minha culpa, minha culpa, quem mandou exagerar? Exagerei, não precisava ter exagerado tanto, podia dizer apenas que tenho um amante, pronto, um tipo comum, nada de especial. Mas comecei com meus delírios, tanta vontade de beleza, de poder. Vontade antiga de chamar atenção, brilhar de mistura com um desejo agudo de vingança, Loris me olhando no maior espanto e eu num crescendo de apoteose mental, fúria de sons com a orquestra desencadeada, Wagner, mais mais! Desfrutável. Uma desfrutável, nunca entendi direito o que quer dizer desfrutável mas sei que é uma coisa vergonhosa, acho que vem de fruta que virou bagaço e as pessoas que se aproveitaram -- mas quem se aproveitou de mim? Nem isso. É que nunca tive nada, nem família, nem emprego importante, nunca a alegria do supérfluo que só o dinheiro, mas que dinheiro? Nem ao menos um gato pingado pra puxar pelo rabo -- não, espere um pouco, um gato isso até que eu tenho. Bebo outro gole enternecida. Um gato de rua mas um gato, Emanuel. Nome que dei ao meu amante e que saiu tão espontâneo da minha boca, Emanuel.
-- Ainda bem, acho que já passou da hora de você arrumar um caso, a gente já estava preocupada com essa virgindade, que horror. E se ainda por cima é um tipo assim lindo -- disse Solange ajeitando o cigarro na piteira.
O sorriso amanteigado foi para Afonso ou para Loris? Acariciou o contorno da boca com a ponta da piteira, tem corpo bonito mas a boca é grossa, vulgar -- não, não! devo estar verde de inveja, tem uma boca fascinante, quisera eu. Quisera eu.
-- Sabe o que quer dizer Emanuel? Aquele que há de vir -- disse Loris fazendo girar com o dedo o gelo do copo. Chupou devagar o dedo molhado.
Fechei meu dedo na gruta da mão: agora me lembrava do sonho da véspera, da voz dizendo dentro do meu ouvido que queria a minha boca, minha boca! Abri a boca e a voz ficou mais obscura, mais secreta, queria a outra boca, a boca silenciosa. Esvazio o copo. Através do vidro vejo os olhos bistrados de Loris me olhando lá de longe, fica distante quando bebe. E próxima, ouve tudo. Entende tudo. Descobriu que menti desbragadamente e ficou perversa, ela que não precisa ser perversa.
-- Afonso, você está rindo sem parar, vai, conta! Sabe que é de mim, a quarentona sem a menor graça e com esses delírios. Sonhando com homens me pedindo a boca, não essa, a outra! Que sonho. Que vida. Só me resta agora ficar repetindo que ele virá me buscar, o Emanuel dos olhos e do Mercedes. Branco? Branco. Finíssimo, disse Loris. Sustentar a mentira enquanto minha cara comprida vai encompridando mais, no boneco de pau era o nariz que crescia
-- ô meu Pai! vontade de vomitar esta cara de freira sem a menor vocação. Tarde demais para começar e começar com quem? Mulheres aos montes se oferecendo, jovens, velhas, meninas de doze anos e meio e os homens exauridos, enfartados, a Loris sabe disso, ela que já se deitou com todos os sexos daqui e do mundo, viajou pelo mundo inteiro. E eu não saí nem do meu bairro. Dois ou três namorados sem o menor empenho, com preguiça de aprofundamento, mas em que tempo a virgindade era prestigiada? O desejo morno, a preguiça penalizada, quer dizer que a minha Alicinha?... Alicinha. Quando me chamam de Alicinha já sei que não vai acontecer nada, viro confidente, irmã. Se ao menos a entrada fosse facilitada, se não sugerisse uma certa mão-de-obra, delicadezas. O medo que eles têm de envolvimentos, vínculos. E eu afetando essa calma quando minha vontade é gritar de ódio, puxar os cabelos, ódio de mim mesma, sua imbecil! cretina, pior ainda do que feia é ser assim opaca, medíocre, nenhuma luz. O dinheiro resolveria, ah, com dinheiro podia fazer a excêntrica, a vaca sagrada que paga sua corte e mais esse Emanuel, por que não? Dava-lhe o Mercedes, avião, navio e mais daria. Meu homem resplandecente, coberto de ouro em pó, dê suas ordens, amor, quer que faça sua comida? que engraxe seus sapatos? Engraxo tudo, sou um ser menor, dependente, frágil, que venham as feministas e que cuspam em mim seu desprezo, ora, cuspam à vontade! As idiotas se fazendo de fortes, arregaçando mangas e dentes, tamanha arrogância.
-- Tinha esse quadro -- prosseguiu Solange e fiquei sem saber que quadro era esse. Fico olhando a correntinha de ouro do seu tornozelo, tem pernas belíssimas.
Encolho as minhas. Ainda assim amanheço e quero escovar os dentes com cuidados especiais, uns dentinhos fracos e a esperança de que um dia. Esperança no creme das sardas, os cabelos ralos e o ovo, a vitamina. Tanta vontade de luta. "A esperança é curva como uma asa", disse alguém. Melhor me deitar na planície mas quando dou acordo de mim já estou subindo a própria montanha resfolegando e subindo. Orgulho? A esperança será só isso, orgulho?
-- E o que ele faz? Seu amado -- pergunta Loris mordendo o sanduíche.
-- É médico.
Ginecologista, tenho vontade de dizer. O que sempre desejei, um namorado médico que me tomasse em suas mãos hábeis e através delas eu conheceria a mim mesma a começar por este corpo que me escapa como um inimigo, saberia do meu contorno quando as mãos fossem me palmilhando, tateantes. Meu cheiro, meu gosto -- ele que já conheceu tantos corpos dentro e fora da profissão, me tome depressa que o tempo é de amor! Com mil desculpas pela minha virgindade, mas não foi nem por virtude, bloqueio, lá sei! eu podia pegar o homem do leite mas faz séculos que não tem mais nem homem do leite nem do pão, mamãe abria a porta e o cheiro da cesta de pães dourados, vem neném, escolhe sua rosquinha -- ah, se essa trabalheira lhe desse afinal um pouco mais de emoção. Sim, me guardei até hoje, nunca antes? Nunca. É simples, Alice, ele diz Aliiiice. Simples como beber um copo d'água, não fique contraída, você está tensa demais, relaxe, seu pescoço parece pedra, não endureça a boca porque desse jeito o doutor não vai poder arrancar o seu dentinho! e meu pai segurou forte na minha mão, vamos, filha, prometo que nem vai doer... Enxugo os olhos no guardanapo de papel.
-- Estou curiosíssima, a que horas ele vem? -- pergunta Loris.
Cravo as unhas no guardanapo.
-- Nem sei se virá, hoje é dia de plantão, já me avisou que vai ser muito difícil aparecer, médico tem aqueles horários complicados.
-- Nem diga.
Mastigo um croquete fumegante. Sopro a fumaça, queria ficar uma formiguinha para entrar nesse vulcão, Loris sabe, os outros desconfiam mas os outros estão distraídos, ela não. Encolho as pernas mas queria encolher os pés que são enormes. Agora Loris quer saber se continuo na mesma casa. Respondo que sim.
-- Sozinha?
-- Com meu gato.
-- Mas ele não é livre?
-- Mais ou menos.
-- Mais ou menos, como?
Estou rindo e é bom rir do Emanuel que tentou fugir, tentou várias vezes até que mandei levantar o muro e agora ele se deita feito uma esfinge no pequeno canteiro e fica olhando o portão.
-- Tem uma dona, é claro. Mas sempre consegue dar suas escapadas, digo. Pela primeira vez nesta festa estou me sentindo melhor, gosto da ambigüidade, do jogo, que difícil ser eu mesma. E que fácil.
-- Ah, ele é casado?
Afonso escolhe outro disco, quer jazz, Solange avisa que vai fazer pipi e o homenzinho do cravo no peito toma nota do telefone da jovem desenhista, não é bonita mas soube armar um tipo com tanta imaginação que bateria a Vênus da concha se a Vênus da concha aportasse nesta praia. Faz o que eu devia ter feito: tirou partido da feiúra que virou ousadia, eu poderia me vestir de egípcia, não? Se esqueceriam da minha boca, do meu cabelo mas do estilo, da irreverência -- e não é isso que eu quero? Ser conversada, discutida. Me volto para Loris que está bêbada e lúcida, o lado ruim me espicaçando, e o Emanuel?... Comecei e agora não posso parar, ninguém acredita, ninguém está se importando mas Loris me fisgou e vem me puxando como o velho pescador puxou aquele peixe, fiquei tão deprimida nesse pedaço da fita, a linha mais curta, completamente esticada e o peixe. Me deixo levar sem resistência e agora ela está querendo -- mas o que ela quer agora?
-- Não há muito o que contar, Loris. Achei-o na rua.
-- Na rua?
-- Parecia solitário, infeliz.
Mais precisamente numa esquina. A lembrança me emociona demais, deve ser do conhaque, ah se passasse por aqui aquela bandeja de doces eu comeria a bandeja inteira, uma vontade de açúcar, chocolate, um analista esperto explicaria depressa, carência afetiva. Meu pai me levava a caneca de chocolate quente e esperava eu virar a caneca até o fim, podia ter vivido até o fim e foi acontecer aquilo, ah! paizinho! mas não, não quero lembrar isso, eu pensava no analista, tudo virando carência afetiva, meu irmãozinho de oito anos dependurava os gatos pelo rabo, um varal de gatos se contorcendo aos urros, também carência? Fazia frio e ele miava e tremia tanto, guardei-o no bolso do casaco, um gatinho mijado, feio, a cabeça vacilante pesada demais para o pescoço fino. Emanuel, eu chamei. Ele miou e escondeu o focinho na minha mão. Tenho um gato, pensei. E uma túnica grega? Uma túnica podia ser uma solução, o friso dourado, sandálias com as tiras subindo pelas pernas, a Alice anda fantasiada de grega, acho que enlouqueceu. Está certo, enlouqueci, a loucura é uma boa saída mas teria que ser uma loucura requintada, com lampejos, iluminações. Eu seria capaz dessas iluminações? Solange levanta a perna que se descobre até a coxa enquanto o homem do lábio leporino tenta abrir o fecho da sua pulseirinha no tornozelo, como ficariam nessas minhas pernas de fio de macarrão as tais tiras douradas? Loris passa engatinhando debaixo da perna de Solange, vai pegar o prato de croquetes. Volta e me encara apertando os olhos. Recomeçamos a comer com voracidade. Preciso falar.
-- Ele gosta muito de música, fica tão calmo quando ouve Mozart.
-- Finíssimo.
-- Às vezes ele se deita na almofada e fica horas e horas imóvel, ouvindo. Os olhos verdes brilhando tanto, como brilham seus olhos quando apago a luz e me deito ao lado.
-- Vocês preferem o chão?
-- Ou a cama, quando acordo tarde da noite ele já pulou na cama, dividimos o travesseiro. Mas o que é isso, está chovendo?
-- Uma tempestade.
-- Tenho que ir, Loris.
-- Ir, como?! Imagine se -- recomeçou ela e emudeceu, a campainha? Não tocaram a campainha? -- Mas se não estou esperando mais ninguém! Então é ele, só pode ser ele!
Ainda de joelhos vou recuando para a zona de sombra, quero esconder minha cara que ficou branca, úmida, não, Loris, não pode ser, hoje tem plantão lá no hospital, dificílimo fugir do plantão! Mas ela encurtou depressa a linha e vem me puxando, mas como?! o amado de Alice acaba de chegar e todo mundo desligado, "pois não foi ele que chegou? só pode ser ele, gente, quem mais?"
A campainha outra vez é agora mais forte, estremeço inteira, o som agudo é o de uma cigarra me serrando pelo meio, ô Deus! a chuva e Loris de pé, oscilando triunfante na proa do barco. Engulo penosamente a saliva, estou salivando sem parar porque no medo a saliva cresce borbulhosa, quero repetir que não pode ser ele e o anzol. Ouço minha voz num sopro, tem o plantão lá no hospital, Loris, dificílimo. Dificílimo.
-- Afonso, meu queridinho, vai abrir a porta!
Baixei a cabeça. E eu já tinha cedido sem a menor resistência, não tinha? Um pouco mais e confessaria, tudo brincadeira, você sabe que não tenho nenhum homem, tenho apenas um gato, Emanuel é um gato! Ela não precisava fazer isso, não precisava. Aperto contra a boca o copo vazio, eu vazia e a plenitude da chuva e das falas, todos falam ao mesmo tempo enquanto a janela se escancara e a cortina derruba garrafas, consegui tumultuar a festa que parece rodopiar na ventania com a voz de Afonso pairando sobre as águas, voltou arfante porque subiu a escada correndo:
-- É o Emanuel que veio te buscar.

re

Um comentário:

Izanete Belarmino disse...

Quando li este conto a uns anos atrás ,fiquei fascinada por ele,depois de tanto tempo, ele ainda tem o dom de me encantar.