sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Criação (Gilberto Mendonça Teles)



O verbo nunca esteve no início
dos grandes acontecimentos.
No início estamos nós, sujeitos
sem predicados,
.....................tímidos,
............................... embaraçados,
às voltas com mil pequenos problemas
de delicadezas,
.....................de tentativas e recuos,
neste jogo que se improvisa à sombra
do bem e do mal.
No início estão as reticências,
este-querer-não-querendo,
os meios-tons,
..................a meia- luz,
.................................os interditos
e as grandes hesitações
que se iluminam
.....................e se apagam de repente.
No início não há memória nem sentença,
apenas um jeito do coração
enunciar que uma flor vai-se abrindo
no seu dia de festa, ou de verão.
No início ou no fim (tudo é finício)
a gente se lembra de que está mesmo com Deus
à espera de um grande acontecimento,
mas nunca se dá conta de que é preciso
ir roendo,
.............roendo,
.......................roendo
um osso duro de roer.

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