domingo, 6 de fevereiro de 2011

Aos poetas clássicos (Patativa do Assaré)



  Poetas niversitário, 
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês. 

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá.
No verdí´ de minha idade,
Só tive a felicidade 
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscrití´, 
O famoso professí´
Filisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá — O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.

Foi os livro de valí´
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autí´
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirí´ da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.

Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E í´tras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.

Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí­ papé
Com poesia sem rima.

Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulí´ sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabí´ a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.

Se um dotí´ me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primí´;
Não merece munta parma,
í‰ como o corpo sem arma
E o coração sem amí´.

Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadí´,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de fulí´.

Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.

Dêste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lêsma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.

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