quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Amor (Miguel Torga)

    
A jovem deusa passa 
Com véus discretos sobre a virgindade; 
Olha e não olha, como a mocidade; 
E um jovem deus pressente aquela graça. 

Depois, a vide do desejo enlaça 
Numa só volta a dupla divindade; 
E os jovens deuses abrem-se à verdade, 
Sedentos de beber na mesma taça. 

É um vinho amargo que lhes cresta a boca; 
Um condão vago que os desperta e toca 
De humana e dolorosa consciência. 

E abraçam-se de novo, já sem asas. 
Homens apenas. Vivos como brasas, 
A queimar o que resta da inocência. 

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