sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Os Segredos da Casa Azul




Havia na minha rua uma casa que sobressaía às demais. A princípio, o seu destaque era a cor. Foi justamente por causa dela que batizamos aquela casa curiosa de Casa Azul. Ela era bonita, toda limpinha, com o muro branco e um lindo jardim. De vez em quando, subíamos no muro e espiávamos lá dentro. Era apenas curiosidade de criança. Minha mãe, ao surpreender-me bisbilhotando aqueles vizinhos, dizia que aquilo era feio e me ameaçava com castigo.


Durante o dia havia um barulho esquisito de bichos . Não ouvíamos vozes de pessoas. Nem mesmo as víamos. Sabíamos que havia gente ali porque à noite chegava um carro...adivinhem sua cor! Um carro azul! Veloz e barulhento com o seu " vrum" nervoso. O cara que o dirigia nem descia. Apertava um botão no controle remoto e o portão abria-se lentamente. Depois, ele apertava o botão novamente e o portão ia fechando-se, fechando-se... Nessa hora, era certo que alguém olhava curiosamente para dentro da casa, aproveitando o pouco tempo que o abrir e o fechar do portão permitia.


Um dia, eu, o Zezé, o Guto e a Gabi, resolvemos subir na árvore do quintal da minha casa para olharmos o quintal da Casa Azul. Não dava para ver muito bem, pois havia três casas entre a minha e ela. Também nenhum dos meus amigos moravam nas casas mais próximas dela. Bem, aquela subida na minha árvore nos permitiu ver no quintal da Casa Azul, uma bola e uma bicicleta. Vimos roupas no varal, uma casinha de cachorro, sem cachorro; um poleiro de papagaio, sem papagaio...


Às vezes, nossas brincadeiras nos faziam esquecer um pouco aquela casa, e nos distraíamos com outras crianças da rua. O pipoqueiro também era uma grande distração para nós; quando ele aparecia Às vezes ele sumia. Certamente estava a vender pipoca em outro lugar.


Quando lembrávamos novamente de espiar a casa, plantávamos a vigiá-la com todo o cuidado. Pura curiosidade. Depois da cor, o que mais nos chamava a atenção eram os ruídos de bichos que vinham de lá. Nada que nos incomodasse, mas o suficiente para sentirmos a presença de moradores ali. Era como um aviso: Mora alguém!


Um dia, o carro chegou com o "vrum" bem mais nervoso. Vimos quando o cara baixou um pouco o vidro fumê do carro e pôs o seu braço peludo para fora, como sempre fazia. Porém, daquela vez, ao ser acionado o controle remoto, o portão pareceu abrir-se e fechar-se mais rápido do que de costume. Ouvimos o arrastar de passos e a porta da casa abrindo-se. Era muito o movimento lá dentro. Nossa curiosidade só aumentava. Algumas vezes sentia-me mal por ser tão curioso a respeito daqueles vizinhos. Talvez porque minha mãe sempre me lembrasse que era feio querer saber sobre a vida dos outros. Mesmo assim minha curiosidade crescia como massa de bolo no forno. Tanto, que chamei o Zezé e o Guto para pularmos o muro da minha casa para a casa dos vizinhos, até chegarmos à casa mais próxima daquela, objeto de nossa curiosidade.


Foi nessa aventura inconsequente que acabei caindo do muro e quebrando a perna direita. Felizmente caí dentro do meu próprio quintal e Zezé e Guto não sofreram nenhum arranhão. "Assim a bronca seria menor", pensei. Acontece que eles apenas faziam "cadeirinha" para mim no momento da queda.


A correria foi grande. Minha mãe chamou logo um táxi e procurava sem nunca achar o cartão do plano de saúde. Dona Ana, mãe de Gabi, foi com a gente para o hospital e eu acho que desmaiei de dor.


Depois do susto,"botinha"no pé, não havia jeito de sair de casa. Deixar Guto e Zezé entrarem para brincar comigo minha mãe não deixava. "Não queria mais confusão", dizia ela. Gabi podia, pois era menina e nela minha mãe confiava, claro!


Brincávamos de adivinha, quebra-cabeça, dominó e assistíamos desenhos na tv. Um mês de castigo. só saía para ir à escola, e ainda por cima, de transporte escolar. Nada de aventuras ou curiosidades saciadas.


O dia em que fui liberado pelo médico para tirar o gesso e pela minha mãe para brincar na calçada, foi marcado por outra surpresa, só que esta não foi boa. Quando saí à calçada, a primeira coisa que fiz foi caminhar no sentido da Casa Azul. E que estranho achei aquilo! Não conseguia ver mais a fachada da casa como antes. Teria eu encolhido depois do acidente! Mas, o incômodo se duplicara, pois ao invés da fachada azul de costume e do muro branco, eu via uma casa salmon e um muro cinza escuro, com chalpisco: aqueles carocinhos que colocam nos muros e só servem para nos arranhar.





Estava no meio daquela confusão mental, quando chegam Guto e Zezé, com cara de coisa nova. "A Casa Azul" não existe mais". Minha frustração foi tamanha. Quase chorei: Os meninos me contaram que no dia da minha queda, chegou um caminhão baú e carregou tudo empacotado lá de dentro. A família, havia saído primeiro no carro azul. Bicho ninguém viu. Depois, vieram uns homens e pintaram tudo. Agora tinha placa de uma imobiliária dizendo "Aluga-se!"

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