sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O Objeto no Céu






Naquela noite, eu, Luana, Avelar e Agnes estávamos distraídos olhando o céu, sentados nos banquinhos que meu avô colocara no quintal. O céu no interior é tão nítido, parece um enorme pano preto respingado de luzinhas. Avelar, de olhos fixos num ponto, só olhava como que hipnotizado e parecia não prestar atenção ao que falávamos. De repente, Agnes dá um grito fino e longo, daqueles que parecem não acabar nunca mais. Aquilo trouxe ao terreiro uma comitiva de pessoas de dentro de casa. Umas, com olhos de espanto, outras, com cara de quem já sabia o que tinha acontecido.
Meu avô fora o primeiro a falar: "Que loucura é essa!? Tem gente dormindo! Tive pena da cara de Agnes e saí em sua defesa, dizendo que ela não estava acostumada com a vida no campo. Depois da bronca do Vô Quim, todos fomos dormir sem graça. Na verdade, sem graça já estávamos, mas com um outro episódio bem mais desagradável que o da lagartinha verde escalando a perna de Agnes. Talvez a presença daquele bichinho tímido tenha apenas impulsionado seu grito, calado desde a súbita separação de nossos pais. Certamente um grito mais de dor do que de medo.

A manhã seguinte trouxe de volta o começo de mais um dia tedioso, sem o movimento habitual da cidade.
O Sol forte nos fazia suar em bica e a presença carrancuda do nosso avô era fator decisivo para o aumento de nossa insatisfação. Torcíamos mais uma vez pela noite, com seus ruídos e mistérios, para que novamente viesse outro dia e com ele a esperança de que nossa vida voltasse a ser como era.

O céu da tarde sempre nos causava melancolia e o chegar da noite nos levava assiduamente aos banquinhos do grande quintal. Eu, Luana, Avelar e Agnes, novamente expectadores da noite naquele lugar.

Avelar, de olhos fixos num ponto no céu, Agnes assustada olhando o chão, eu e Luana trocávamos olhares cúmplices de preocupação com a vida. " Onde estaria mamãe? Quando viria nos buscar?"

Subitamente, Avelar aponta para um ponto no céu, tentando chamar a nossa atenção. Então, levanta-se pasmado e dispara para dentro de casa aos gritos e balbuceios, puxando meu avô para o quintal. Vô Quim, atraído pelo rebuliço de meu irmão, passa também a olhar para o céu com os olhos vítreos, como se estivesse distante.

Passados alguns minutos, meu avô adota a postura habitual e nos convida a entrar para dormir. Avelar também não toca no assunto e nós três: eu, Luana e Agnes, vamos dormir curiosas, especialmente Agnes, constantemente assustada.

Naquela noite, Agnes dormiu comigo na cama de cima. Luana, como a irmã mais velha, tentava nos passar calma, por isso, resolvera dormir na cama de baixo, ficando assim, mais próxima da gente.

O dia que antecedeu a nossa volta à cidade foi especialmente estranho. Vô Quim havia sumido desde a tarde e estávamos ansiosos por sua presença. Não que ele fosse especial para nós. Isto não o era. Sempre calado, carrancudo e chateado com nossa presença, nem parecia pai de nossa mãe. Logo dela, que era tão alegre e paciente.

Queríamos sua presença apenas pelo fato de que ele nos levaria de carro até a estrada para pegar o ônibus de volta para casa.

Bem, estávamos todos como sempre olhando para o céu, ou calados, pensativos, quando vimos um clarão intenso. Em seguida, meu avô surge do fundo do terreno e olhando para o céu, novamente hipnotizado, aponta para um ponto. Avelar, levanta-se subitamente e corre para dentro de casa. Minutos depois meu avô entra e nos manda dormir, "Amanhã vocês voltarão à cidade." Todos fomos dormir ansiosos e assustados. "O que seria, afinal, aquele ponto no céu?"
Felizmente iríamos embora pela manhã.




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