sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Mistério


    O sinal que indicava o fim da aula havia tocado. Júlia e Marcela, de mochilas previamente arrumadas, largavam na frente em disparada. Elas faziam tudo para não perderem a carona de Anita, aquela chatinha da 7a série A. Ubaldo, o professor de Inglês, organizava seus pertences de cara fechada; detestava aquele rebuliço ao toque de fim de aula, pois jamais conseguia concluir a última frase, (suas aulas eram as finais) porque após o alerta final ninguém se concentrava mais em nada. " Aquilo era um horror!" dizia Ubaldo. "Afinal éramos seres pensantes, e não um bando de animais".
    Após a saída de Ubaldo (que era sempre o último a se retirar) vi um menino entrando na sala. Estava sem farda e não carregava livros ou coisa parecida. Eu estava sentada sob a grande árvore no centro do pátio, no cercado feito de cimento e que servia de banco. Adorava ficar ali conversando na hora do intervalo ou mesmo sozinha, esperando Elza, a secretária lá de casa vir me buscar.
    Como estivesse escurecendo, e nada de Elza, resolvi conferir quem era o menino de roupa esquisita que havia  há pouco entrado na minha sala. Acontece que me surpreendi ao perceber que a porta agora estava fechada. Ao girar o trinco, foi maior o meu espanto. Não consegui olhar lá dentro, pois a porta estava trancada.
    O incrível disso tudo foi que Aluíso, o zelador, não havia passado para varrer as salas do fundo, onde ficava  a minha. Podia ouvi-lo agora varrendo as salas do Jardim, lá no começo. Aquilo estava me deixando curiosa e agora  eu torcia para que Elza demorasse um pouco mais. Queria saber quem era o menino trancado em minha sala. Seria melhor chamar o Sr. Cunha, o diretor ?
    Comecei a ficar distante, misturando pensamentos com lembranças. Ao mesmo tempo em que tentava resolver o que fazer, forçava a minha mente, tentando lembrar se em algum momento teria ficado de costas para a sala, de maneira que ficasse impossibilitada de ver se alguém lhe havia trancado e se o garoto havia de lá saído.
    " Leca, Leca" ouvi a voz de Elza bem distante... "Leca, você está surda, menina ? O que faz aqui ? Já disse que me esperasse ali, sentada e com a mochila arrumada." Corri a juntar algumas coisas que havia deixado sobre o banco de cimento na hora em que resolvi investigar sobre o que acontecia na minha sala de aula. Não sei por que agora eu gostava mais dela do que antes. Ah, se aquele invasor esquisito de blusa listrada e calça e sapatos de homem, se metesse a mexer nos nossos cartazes! Quem sabe ele  até tentaria arrombar o armário dos professores...
    Elza me apressava, tinha que fazer o jantar e havia-se atrasado na fila para pagar o telefone. " Se soubesse teria vindo lhe pegar logo. Você está me atrasando. Depois dona Lúcia reclama." Atravessamos o pátio de mãos dadas. Lá fora o motivo do atraso de Elza: Cândido, o namorado, nos esperava de bicicleta. Essa eu contaria para a mamãe.

    De repente, abandonei a história de Elza e olhei para trás. Parecia que a minha cabeça não terminava nunca aquele giro. Vi a porta da sala de novo aberta, e o professor Ubaldo, saindo de lá com sua pasta na mão. Ele acenava para Aluísio que, se dirigia para as salas do fundo. Em cima do  banco de cimento, a roupa esquisita  do menino intruso: a blusa listrada, a calça, os sap... Procurei avidamente os sapatos. Encontrei-os chegando ao estacionamento nos pés do professor Ubaldo.
       

Nenhum comentário: