sexta-feira, 11 de julho de 2014

Em Silêncio



Esse silêncio que passeia por entre a grande fresta
Do seu coração solitário, mas de batidas fortes...
Esse vazio sonoro que eclode no franzir da sua testa,
Formando-lhe sulcos como grandes cortes...

Esse olor almiscarado, que de seu suor deriva,
Une-se aos seus ternos olhos matizados de mel,
Numa mistura que me deixa tonta, à deriva,
Desamparada de senso, numa viagem ao léu...

Unos escrevem pouco a pouco um enredo lasso.
Narrado, sem permissão, mas não à revelia. 
Sem que se pense em êxito ou fracasso,
Mas sob a custódia do silêncio, sem arrelia.

Guerra



Tentar justificar e compreender a guerra é tão insano quanto a própria.

Sob a Ótica Canina



Por que não conviver com humanos nunca é demasiado seguro? Porque, embora haja exceções, tantas que até nos animam, o fato é que a espécie humana é perigosa mesmo sem querer. Ela vê tudo sob sua própria ótica, julgando-se superior, moldando o mundo a suas necessidades e desejos.

Veja-se a esse propósito um simples e prático exemplo: a coleira. Prevalecendo-se de vontade, de afeto, de generosidade, os humanos dão de presente a sua família: a uma criança, a um doente, a um idoso um cão já equipado com coleira, muitas vezes até com focinheira. Eles acham isso algo muito comum. E de fato "para eles" é sim comum, nos prender num quintal, solitários e deprimidos, tolhidos daquilo que é  fundamental a qualquer animal: a liberdade.

Há até alguns que nos brindam com módicos momentos de lazer e carinho, após nos deixarem o dia inteiro presos, muitas vezes, dentro de lugares pequenos, apertados e sem direito ao ar livre. E assim dividem conosco suas neuroses e compulsões, ao confundirem suas necessidades com as nossas. Dessa forma, é comum ver por aí disparates como: cachorros vestidos tal gente ou abrigados como seus bebês; agarrados com bichinhos de pelúcia, que mais parecem seus semelhantes. Coisas de humanos!

Mas tenho visto coisas piores, algo que, inclusive, não sobra só para nós os cães: apetrechos e visuais, dos mais inusitados, dados a todo tipo de animal escolhido por sorte ou por azar (vá saber) por muita gente esquisitona. Tartaruga com sapatinhos, gatos de  cartola, macacos com chupeta ou de óculos esporte, cachorro com visual punk, coelho pintado de rosa. E por aí vai.

Todas essas escolhas geralmente determinam a necessidade do humano em questão. Algo que desvirtua a condição animal daquele a quem o dono escolheu, sob a alegação de cuidar, de dar amor, de proteger. É claro que muitos têm sim boa intenção, ainda que mascarando com isso muito da sua própria carência, razão pela qual resolvem adotar um animal. Mas não se pode negar que muitos, com tais exageros, acabam por dar aos seus "protegidos" uma verdadeira vida de humano, o que equivale aqui à vida de cachorro de que tanto falam.

Centrando-se nas peculiaridades caninas, nós cachorros, bichos afeitos à liberdade em sua totalidade, somos muitas vezes "condenados" a tantos exageros e a cuidados desnecessários, que nos corrompem a essência, o que nos faz ter características típicas somente de  cães criados sob tais circunstâncias, algo bem diferente de hábitos tais como roer um osso carnudo no quintal (o cão doméstico hoje só pode comer ração), de correr atrás de um gato, de escavar a terra para enterrar coisas. Até mesmo do "direito" de coçar gostoso o corpo, de morder as próprias orelhas atrás de pulgas.

Sendo assim, penso que esse tipo de atitude dos nossos donos-família, aos poucos, moldam uma nova espécie animal (falando de cães) biologicamente, o canis lupus familiaris, o cachorro doméstico, mas psicológica e habitualmente parecido com o homem. Mudanças drásticas na rotina de animais, seja por um ou por outro fator, segundo a ciência, acabam determinando  sérias transformações em espécies. Isso inclui características de  alimentação, reprodução, habitat entres outras necessidades.

Deixando um pouco de lado os prejuízos causados a nós, amigos historicamente fiéis do homem (talvez por isso a suposta gratidão), evidencio aqui o desperdício de o homem  usar indevidamente acessórios, produtos e outros, em detrimento da necessidade do próprio semelhante. É muito comum vermos crianças descalças, sujas e desabrigadas ocupando as calçadas, onde deveriam transitar livres os cachorros confinados em micros quintais. Sendo assim, penso: por que não encher de mimos e desvelos o seu semelhante, muitas vezes abandonado, a quem certos cuidados caberiam bem?

Lendo-me neste momento você pode, leitor, vir a  pensar: mas que cãozinho mais ingrato esse! Porém, em nenhum momento critico aqui os donos esmerados que tanto dão motivos à espécie canina de abanar peculiarmente a cauda. Para esses dou meus latidos de gratidão em nome de todos os cães que são adequadamente domesticados. Porém, não posso me calar diante de tantas atitudes "non sense" que, a meu ver, equivalem apenas a desculpas para que sejam, a priori, satisfeitas as suas vontades, disfarçadas sempre de amor, desvelo e fidelidade ao tão fiel companheiro.

Finalizo reforçando o que disse no início: que o homem vê tudo sob sua ótica. Para isso dou um exemplo tão literal quanto simples e direto: os brinquedos coloridos que nos dão de presente. Bom, tenho ouvido sempre que o cão não enxerga todas as cores com a mesma potencialidade com que o ser humano as enxerga, considerando-se tantas matizes que há para cada uma delas. Mesmo assim, as lojas que vendem produtos para cachorros oferecem brinquedos e mimos em tons tão variados quanto coloridos, com os quais os donos insistem em "presentear" seus bichinhos.Isso só comprova minha tese sobre a necessidade do homem sobrepondo-se à necessidade de seu melhor amigo. Dentro de tão controverso contexto, poderemos nós os cães considerarmos também o homem como nosso melhor amigo?

A Derrota Brasileira




Eu já fui uma torcedora muito empolgada. Eu me caracterizei praticamente durante todas as copas às quais assisti até aqui. Vesti a camisa verde e amarela com toda a vontade. Assisti aos jogos muito empolgada e até arriscava comentários. Nas duas vezes em que eu assisti ao Brasil ser campeão, puxa foi uma emoção indescritível! Eu fiquei tão feliz que me senti culpada pela tristeza dos derrotados. Mas como assisti apenas a duas vitórias e a muitas derrotas, fui aprendendo a trabalhar essa possibilidade, e foi com a derrota do Brasil em 2010 na Copa da África, que resolvi não sofrer mais com outra possível derrota. Eu fiquei tão mal com o fato de o Brasil perder novamente que não gostava de ouvir as músicas relacionadas à Copa, por isso durante esta copa comentei que não se deve sobrepor futebol às questões que prevalecem sobre isso. Porque ao longo da vida, aprendi que devemos controlar os sentimentos diante de situações assim. Até mesmo porque não é nada saudável nem construtivo esse tipo de sofrimento de forma exacerbada por algo que não nos é vital, nem primordial. Estamos em ano político e devemos nos centrar nisso e tentar fazer a nossa parte a fim de ajudarmos a melhorar o nosso país, que é sim o país do futebol, já que isso faz parte de nossa história, mas é também (e sobre isso digo infelizmente) o país da corrupção. Vamos focar agora na reeleição e tentar virar esse jogo em nome de todos os brasileiros honestos e trabalhadores. Foi uma pena perdermos a Copa sim e me solidarizo com todos os brasileiros que, como eu nos anos anteriores, estão sofrendo muito hoje com essa derrota, mas vamos lá, "bola para frente", amigos, a vida continua.

Irrelevância



Não estava nem aí,
Nem ali nem acolá.
Podia a Lua parar,
Os canivetes choverem,
Os olhos do mundo lhe verem,
A chuva se levantar
Logo após cair.
Podia a vaca tossir,
Que não estava mais aí,
Nem ali nem acolá.
Podia a jeripoca piar,
Ter que em onça mamar,
Que o lema era: aí não estar,
Nem ali nem acolá.

Pedágio



Era só um elogio,
Desses quase sem ser.
Daqueles assim por dizer.
Era quase um adágio

Numa frase encomendada,
Simples e ligeira,
Tênue e tão armada,
Guardada na algibeira

Apenas pra fazer fita.
Engatilhada como  arma.
Pronta para ser dita.
De contágio como a sarna.

E fazia muito barulho,
Porque era indiscreta
Como papel de embrulho.
Chamativa como uma seta

Que se pinta luminosa.
Como o preto no branco.
Como ovelha pós tosa
A quem se olha com espanto.

Era só um adágio,
Desses que parecem dizer:
Aceite, mas pague o pedágio,
Para poder receber.

Leve

Alma leve de passarinho
Que se atreve e cisma.
Escreve
Histórias de libertações.
E sente a alforria
Emergindo de si
Como lava de vulcões
Derretendo neve.
Segreda
Consigo mesmo suas monções.
E sente a possibilidade
Emergindo pra si
Como chuva de verões
Que chega de repente.
Usufrui
O que de bom vem com o tempo
Emergindo em si
Como ventania num catavento.

A Mágica da Percepção



A vida não precisava de acessórios para se fazer mais bela. Ela transcorria tão fluente e colorida entre os acontecimentos diários ou incidentes. Pela manhã, muitas vezes a chuva densa que se transformava em chuvisco banhava o verde domesticado e o indômito
À tarde, as nuvens arroxeadas davam ao céu a aparência melancólica e misteriosa. Ao fundo, a mata abrigava periquitos e passarinhos diversos, ao mesmo tempo que produzia frutinhas suculentas e ervas daninhas.
O cair da noite, com seus mistérios, trazia medinhos e medões. Tantas onomatopeias saltavam na escala dos sons! Na mente desfilavam personagens em cenários incríveis. Os olhos cerravam-se como cortinas após uma apresentação.
Agora o sonho se encarregaria de fiar o tecido dos dias, com seus personagens reais e imaginários, sob a ótica lúdica e mágica da menina que via a vida com os olhos da sua percepção.

Lassidão



Vestido da flor do algodão,
Pés sem sandálias na areia.
O ar lembra a lassidão
Do sangue correndo na veia.

A casa tem a aparência
Dum abrigo aconchegante.
O vento arrasta a essência
Do seio tão verdejante. 

De sede teu corpo transpira 
Em meio às coisas da lida.
O campo é estampa florida
Que a minh'alma inspira.

O Sol teus olhos incendeia,
Doando-te porções de lume.
Como se fosse uma candeia
Que se expande no negrume.

A vida é dama pachorrenta
No lusco fusco das horas.
Teu olhar me desorienta
No ínterim das demoras.

O céu é um tapete inverso
Que é estampado de Lua.
Nosso mundo é o universo
Que liga minh'alma e a tua.

Ludíbrio



E a traição, tão sorrateira e mesquinha,
Ronda o coração humano; só dele se avizinha.
Egoísta, inconsequente, cheia de si, de maldade
Ela é uma raposa usando a ovelha por vaidade.

A traição é dissimulada, fútil e perigosa.
Ela tanto engana o outro como o seu agente. 
É, pois, uma ilusão tão vil quanto danosa;
Ação apenas do ser denominado gente.

Ela, ao invés de apenas ser usada, usa.
E quem faz do outro tolo e dele abusa,
Não passa de vítima de seu próprio engano.
É tolo quem trata o coração do outro como pano

E merece uma rasteira bem dada.
Da traição de bom não se espera nada,
Porque de verdades urge sempre a vida.
Ao traidor o engano vem na mesma medida.

Enredos




A renda que o céu tece ainda dia
Sugere-me quase sempre um enredo.
Com tais imagens tenho a ousadia 
De traduzir em versos algum segredo.

E talho do céu cores e contornos,
Narrando episódios, que da mente,
Muito ou pouco servem de adornos
Pr'algumas histórias, que simplesmente,

Jazem perdidas nos tantos labirintos,
Onde moram lembranças e sentimentos,
Ou mesmo os devaneios extintos
Do meu eu perdido em pensamentos.

Aurora Inaudita



Eu queria uma aurora inaudita,
Que arrastasse por todo o dia
Sua luminosidade rara e bendita
Sobre a escuridão de minha agonia.

Que da abóbada resplandecesse 
E assim como um grande facho,
Que quando ao solo descesse,
Cintilasse as águas do riacho.

E que os seus raios fulgurantes,
Como o  condão de uma varinha,
Apenas em poucos instantes
Fossem minha fada madrinha.

Agora



Não estar feliz jamais a ninguém apetece.
Aqui, lá, que seja alhures, porém, agora. 
Mas a faca corta a esmo se você a esquece.
E é no espaço do ainda que o perigo mora.

A noite é um branco que sempre encarde,
E à felicidade não se fecha a porta.
Tornar-se  feliz é tudo o que importa.
A manhã não deve esperar pela tarde,

Se ousa  abrigar o pranto que lhe destrói,
Sobrepondo-o a uma e a outra saída...
Ora, o sal do pranto é o que mais corrói!
Nada se vislumbra com a pálpebra caída.

O dia é uma noite que empalidece;
A noite é um dia que já se fez  tarde.
E o abrir os olhos depois da prece
É a felicidade sem nenhum alarde.

Gol


Eu não entendo muito de gol,
Mas quando vejo um, admiro.
O ato com o pé, pseudo voo
Da bola no ar, que plana em giro,

Rumo ao objetivo lhe dado:
Invadir a rede do oponente
Naquele pretenso e bailado 
Voo, que eclode na voz da gente:

GOOOOOOOOL!

Deus

Deus, poderoso e eterno.
Eu, filha natural da morte;
Curto tempo, humana sorte.
Deus, ser enigmático, superno.

Eu, pessoa, gente, humana
Na fragilidade patente.
Caminhada vil, profana.
Deus misterioso, eloquente...

Deus, estranho ser supremo.
Aquele que sempre houve.
Deus, indizível ao extremo,
Mui digno de que se louve.

Eu, vulnerável, vã, perecível
Pela leviana herança,
Que aos seus olhos,criança,
A erros tão suscetível.

Deus, inquestionável mistério; 
Deus, verdade irrefutável;
Deus, incontestável refrigério;
Deus, o invisível palpável.

Cenas


Meus sonhos deitam-se remotos
Sobre cheiros, sabores e tatos,
Buscando enredos ignotos,
Que moram em porta-retratos.

E, ávida eu pelos pedaços,
Com os sentidos aquecidos,
Encontro muitos dos traços,
Que há tempos esquecidos,

Nas várias e várias telas
Que, cinzas ou matizadas,
Narraram minhas novelas
Com cenas aromatizadas.

Fluência



Ser rio faz diferença
O rio flui, desemboca.
Tem dinâmica pretensa.
Enérgico, tem pororoca.

É fluente, não empoça.
Livre que é, se renova.
O lago, uma grande poça
Inerte na funda cova.

O lago é estagnado,
Não flui, tem águas apáticas,
Que não atraem ao nado,
Mas o rio pede táticas.

Todo rio é feérico,
Tem bagagem ancestral,
Mas para o lago o mérito
É ser apenas normal.

E, sendo assim, eu me vejo
Um pouco meio lacustre.
Olho os rios e antevejo
Um destino mais ilustre.

Quando, enfim, acedido
À qualidade fluvial,
O meu volume retido
Sobrepuje o banal.

Cataplasma

Ora, estejam conscientes
De todos os desenganos.
Não arrefeçam os panos;
Melhor que estejam quentes.

Meios termos não resolvem,
Mas água morna alivia.
Ao passo que a água fria,
Nem sempre as dores dissolvem.

Envolvam a sua alma
Naquilo que é lenitivo.
Melhor usar cataplasma
Pra fugir do opressivo

Sentimento do pesar.
Usem sem medo o emplastro
Para escapar do claustro
Que é a mágoa abrigar.

sábado, 21 de junho de 2014

Minha Ave Interior


Minha ave interior
É-me boa companheira,
Inda que vil agoureira,
Por fazer-me sentir mal,
Ante as aves do quintal.
Tem voo subjacente.
Um voo triste inverso,
Profundo e submerso.
Um voo atípico, abismal.

Noite Cheia de Sonhos

             

    "Noite alta, céu risonho.
     A quietude é quase um sonho..."  Cândido das Neves


Noite alta, céu risonho.
Minha quietude começa
Quando, à noite, o sonho
Chega, assim, e sem pressa,

Faz o luar, lá na mata,
Lavar com  a palidez
Da sua chuva de prata
O verde e sua tez.

Na quietude do sonho,
A vida é cor de rosa.
O meu olhar todo ponho
Na Lua sempre airosa.

No sonho da noite alta,
Eclodem tantos desejos,
Que se traduzem em gracejos
Para suprir toda a falta

Que  eu  sinto de teus beijos.
E, como a Lua altiva,
Olha do alto os andejos,
Eu, ainda que esquiva,

Olho as estrelas serenas
Na quietude do sonho.
No  dilúvio de falenas,
Meus olhos agora ponho.

E recito minhas queixas,
Fazendo-lhes um pedido
Com teu nome nas endeixas:
"Que não me tenhas esquecido!".

Saia Justa


Sai da cena à  francesa
Sem coragem  e sem graça.
Corre à boca pequena
O que se bebe na taça.
E, entre as pernas da mesa,
A  farra não é amena. 
Sobre farelos de massa
A pólvora está acesa.
Nem saindo à francesa
Livra-se da carapaça.

O Pato

O pato quebrou um prato.
O pato pulou o muro.
O pato com o bico duro
Quebrou o porta-retrato.
O pato é um bicho faceiro.
O pato é um bicho zangado.
O pato é um bicho encrenqueiro,
Briga até com o galinheiro.
O pato canta engraçado.
O pato tem nadadeira
O pato não quer ser assado,
E foge da cozinheira.
O pato é um bom nadador.
O pato é um bicho bonito.
O pato não é cantor.
Não canta, ele solta grito.

Passa(tempos)


Lufadas de vento nas esquinas,
No vão daqueles passatempos.
Mensagens impressas nas retinas
E que não somem com os ventos,
Trazidos por outros tempos.
Dormem então nos pensamentos
As tais mensagens impressas. 
Guardadas sem camuflagem
Junto a imagens diversas.


A caneca colorida, que posava eternamente na estante,
Era uma caneca bonita, que trazia lembranças
Como num cordão de fita, ou de barbante.
Era olhar para ela e montar na cabeça tranças
Perfeitas de episódios, de coisas e de pessoas.
Contemplá-la trazia-me sensações mais do que boas.
Como ao som de melódios, eu flutuava entre imagens
E devaneios em fulgurantes pensamentos. 
Com o sopro de tantos e tantos ventos
Eu ia além dos passeios nas  nórdicas viagens.
Eu voava sem asas na minha imaginação
E encontrava coisas, pessoas e lugares que eu nunca vi,
Com os olhos fixos na caneca vinda de Milão.
Tanta coisa cabia no singelo souvenir...

Da Descategorização da Beleza e da Feiura



A feiura é uma característica que, em  geral, não se deseja ter, muito embora se saiba  que ela pode ser determinada por um ponto de vista diferente, já que  as pessoas costumam ter gostos distintos, de forma que o que parece feio a alguém pode parecer lindo aos olhos de outrem. Porém, em geral, se tem uma ideia unânime sobre o que é beleza, principalmente em se tratando de beleza física. Nesse pormenor, a beleza tem se configurado para muita gente ora um problema ora uma  solução.

Se a questão for a exaltação à beleza, como a que há em determinadas profissões, ela é sim muita bem-vinda e seguramente tem alavancado muitas carreiras mundo afora, mas se, por exemplo, a questão for a de um emprego que exija  do candidato mais inteligência do que qualquer outra característica, a beleza nesse caso funcionará como um impedimento, visto que é muito comum o rótulo de pouco inteligente para pessoas bonitas, o que certamente se trata de equívoco, mero preconceito.

Considerando-se o lado pessoal, não é raro ver pessoas que se sintam incomodadas pelo assédio que sua beleza física lhes "proporciona". Umas, por viverem afundadas em sua timidez, outras por serem portadoras de autoestima baixa, não tendo, portanto, equilíbrio entre a potencialidade de sua beleza e o seu nível de controle emocional.

Atendo-se às questões relacionadas ao lado pessoal, se pode concluir que a beleza para essas pessoas acaba tendo uma conotação negativa, estando a beleza, para elas,  mais para o menos do que para o mais. E sendo assim, a busca delas é também em sentido oposto ao da maioria das pessoas, que, ávidas por moda, estética e evidência, buscam o ápice da beleza, muitas vezes, pondo em risco a saúde ou mesmo a própria vida.

E tendo aquelas pessoas  objetivo diferente do que essas para a beleza, primam por camuflarem-se, ao contrário do que fazem as outras. Com isso em mente, adotam toda uma rotina para se perderem na multidão do comum, por assim dizer. Assumem, então, determinados estereótipos, e nisso incluem comportamentos, vestimentas, hábitos, adotando como escudo a  feiura. Sim, escolhem o conforto do anonimato, mesmo que isso lhes custe certa rejeição, o que lhes "assegurará" o convívio além da conta com a solidão. Essa adesão voluntária à feiura, ao mau gosto, se por um lado lhes garante uma feiura visível, por outro lhes faz mergulhar na beleza do seu mundo interior, o que as faz de alguma forma inevitavelmente belas.

A Degeneração dos Bons Hábitos



Quando vejo manifestações como a que houve no estádio Corinthians, o primeiro sentimento que me vem é o da tristeza. Sim , tristeza por ver lamentavelmente a degeneração dos bons hábitos, dos valores, justamente em nome da luta pelos direitos. Um verdadeiro contrassenso.

Depois me vem uma sensação inconveniente de desrespeito, de profundo desrespeito, afinal, ver tal tratamento direcionado a uma chefe de Estado, seguramente, é algo muito desconcertante para quem tem o mínimo de bons modos. Um desrespeito que se estende a toda a nação, inclusive aos próprios manifestantes responsáveis pelo ato, se pensarmos na repercussão que algo desse tipo gera.

A seguir, me vem um sentimento denso de desilusão, de receio pelo que nos aguarda no futuro, que aliás, pode estar muito próximo. Algo assim como a justiça com as próprias mãos. Temo ter que  assistir com maior  frequência a cenas mais grotescas do que essa, visto que já se assistiu bem antes do incidente em pauta a situações em que as pessoas agem inconsequentemente julgando-se salvaguardadas pelo direito de dessa forma agir mediante o descaso dos dirigentes governamentais, que dia a dia, se  avoluma.

Penso também na ausência do equilíbrio emocional, algo que contribui para atitudes precipitadas, aquelas que, em parte, nos lembram  o instinto animal. Isso, manifestado numa coletividade, acaba por gerar a reação em cadeia que houve no estádio e que foi demais divulgada aqui e em muitas outras partes do mundo. Então, me vem aquele pensamento, já tão gasto, sobre o fato de o brasileiro ser mal visto lá fora, tornando-se impossível não fazer a seguinte crítica: o mesmo brasileiro que questiona isso, suscitado pelo tratamento que recebe ou recebeu lá fora, age irresponsável e desrespeitosamente da forma que se viu no estádio ao ofender publicamente a presidenta do país. Como ele sendo alguém comum no país alheio, pode reivindicar tratamento respeitoso,  portando-se tão desrespeitosamente ao se dirigir à presidenta de seu país, desrespeitando  com esse ato também os estrangeiros ali presentes?

Por fim, concluo que estamos num país em que não se prima mesmo pela educação. E não falo apenas de desinteresse político, mas do desinteresse em massa, visto que, enquanto seres políticos e sociais, temos sim, tanto direito quanto dever de valorizarmos as boas maneiras, os valores humanos, algo que deve ser estabelecido na família, a primeira sociedade com que se tem contato. Não se pode falar em educação, nesse pormenor, atribuindo-a a pessoas que, em dado momento, estão ocupando um cargo político, que é algo momentâneo. Fora isso, não se pode se isentar dessa responsabilidade sobrepondo a ineficiência política a algo que é de responsabilidade de todos, já que somos todos seres pensantes. Ademais, um cargo político de pequena ou larga escala não faz do seu ocupante alguém melhor, mais educado, nem mais humano, disso deve se ocupar a família, como já dito, a primeira sociedade com a qual convivemos.

Cearês



Menina, rebola isso no mato,
Num fica arrudiando.
Capa logo o gato,
O lixeiro tá já passando.
Depois dê o grau nesse salseiro,
Que estou fumando numa quenga.
E veja se não arenga.
Teu pai hoje está bunequeiro,
Cheio dos pau,
Aquele galalau.
Depois vá merendar,
Se não vai ficar com gastura.
Mas não vá se empanzinar.
Avia, deixa de fazer hora,
De conversar miolo de pote
Com esse magote
De abestada.
Coma logo essa rapadura.
Preciso sair agora.
Estou avexada.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Dissolução

 Vivendo num mundo onde o medo já se tornou trivial. Onde se banalizou tudo o que já foi segredo e que chocou um dia. Vivendo o paradoxal. Vivendo todas as possibilidades de frustrações e de dores. Vivendo a eterna divisão inexata. Os mais variados dissabores. Vivendo toda a agonia da ganância pela prata. E vivendo sem controle também a raiva gerada por todas as coisas supracitadas. Vivendo as alucinações.
Vivendo a nudez da alma pela ausência do sonho. Pior, vivendo a possibilidade de imaginá-lo com toda a força, mas, em contrapartida, com a força maior de freá-lo usando todos os cavalos de potência de sua consciência. Vivendo a diluição do meio, a mutilação das faunas e das floras, de todos as prendas naturais. Vivendo sem esteio. Vivendo a poluição sonora, que tanto se ignora. A poluição do ar... Inflando os pulmões apenas por necessitar.
Vivendo a inércia pela impossibilidade de caminhar livre. A imobilidade imposta pelos novos tempos, pela dinâmica que move a humanidade rumo ao caos. Vivendo o declive. Vivendo a impunidade, a mudez da oralidade, a crueldade dos maus. Vivendo as calamidades, os declínios abissais da pirâmide dita social. Vivendo o ápice da involução animal. Daquele tido como soberano anteriormente. Vivendo o peso de ser consciente.
Vivendo a vida sem agradecer o grande dom de viver. Sem apreciar a grandeza do micro voo da borboleta. Vivendo a captura das horas. As mesmas que escravizam, que resumem a existência às simples prisões subjetivas das demoras. Vivendo um grande circo onde os palhaços são maus e não divertem, hipnotizam e, depois, põem fogo na lona e cruzam os braços sem medo do que virá à tona.
Vivendo sem viver. Vivendo a alienação por imposição ou acomodação! Vivendo o descaso. Vivendo o freio do atraso... Vivendo numa encenação, por falta de opção. Por ser um ser dotado de vida, por oposição à morte... Por teimar e assanhar a própria sorte. Vivendo a inversão de valores, a insipiência da justiça, as leis ardendo em bolores. Vivendo a afundar, a ter a vida imersa na areia movediça. Vivendo com pressa. Vivendo à beça esse pseudo viver bem profundo. Vivendo o que se é dado a ter. Vivendo, enfim, neste mundo.

A Bela Adormecida (Paráfrase)





Durmo. Sonho. E, no sonho, lhe encontro. Você aparece e desaparece em meio à neblina. Há entre mim e o destino um confronto. E nesse desatino eu fico confusa. Sinto-me meio intrusa, como se meu caminho fosse algo que a vida ainda não trouxe. Por isso, fico sobre a ponte que separa a realidade de mim, e vendo outro horizonte, penso que além daquele pôr do sol há uma história sem fim.


Eu caminho sobre os sonhos. Às vezes, tristes, enfadonhos, noutras, ternos, graciosos. Vejo um reino dormente. Pessoas passeiam por minha mente.Os sonhos parecem infinitos, eternos, pois são tão morosos. Enquanto os sonhos se desenrolam, eu hiberno. Vejo uma velha fada ressentida, sentindo-se rejeitada. Sua feitiçaria me deixaria morta, mas uma boa fada deixou sua receita torta, então fiquei apenas, assim, adoentada, dormindo por toda a vida.

Ah, dormi tanto, parece que foram anos! Entro em colisão com a realidade: catalepsia. Tento mexer o olhar. Estou entre o dormir e o acordar: paralisia. Em meio a travesseiros e panos, mal consigo respirar. Dali adiante, só me resta esperar pelo instante em que finalmente poderei levantar. De pé, enfim, olho pela fresta, lá fora o Sol a raiar. Não lhe vejo. Uma ruga na testa.Como assim? E aquele beijo do meu despertar? Não era ele que ia pôr um fim na minha letargia, dando-me ânimo e muita energia?

Bem, na atualidade, a floresta de espinhos é a urbis: cidade. Quem sabe por isso, você tenha se atrasado. Quem sabe o meu "castelo" fique do outro lado de onde você mora... Talvez isso explique toda a sua demora. Ah, mas assim você parecerá até mais corajoso! Não tem cavalo de raça, nem espada, mas enfrentará a ameaça de andar nas ruas para encontrar a amada. Isso sim é perigoso!

Olho de novo . Vejo um perfil fidalgo. Lembro de algo. É da da história sem fim em que eu tanto pensava enquanto sonhava e sonhava. Fico contente ao vê-lo à minha janela..Bem, era para ser na torre, não sei o que houve, mas eu moro num sobrado amarelo, que não é bem um castelo.Finalmente, não estou mais adormecida e acho que continuo bela.

Pingue-Pongue


Sorvete


Quero
Sorver-te,
Sorvete.
Só ver-te
Também
Sorve-te,
Mas prefiro
Sorver-te
Do que
Só ver-te,
Sorvete,
Vem aqui
E só verte
O teu
Dissolver.
Não quero só ver-te.
Quero sorver-te,
Sorvete!

Anoitecer


A manta da noite cobre a vida
No espaço após a ida da tarde.
O horizonte a noite invade,
Deixando a tarde esquecida.
E as estrelas são pirilampos
A pulsar sua energia
No firmamento, onde tantos
Outros astros jazem
Constantemente numa romaria,
Ao mesmo tempo que nos comprazem
Com sua cintilância
Involuntária e frequente,
Como se fizessem a vigilância,
Quando o dia já se faz ausente.

Anaptixe


Subtraíram
Os pneus do carro.
Um absurdo!

Essência


Nos cabelos, flores frisos.
Nos pés, vento.
No olhar, um pensamento.
Na face, sorrisos.
Nas mãos, gestos.
Na mente, imagens.
No coração, restos.
Na alma, paragens.
Na aura, flores fluídas.
Nas palmas, linhas indefinidas.
No corpo, um complexo
De coisas inconclusivas:
Nexo e desconexo.
No ser, um pouco de tudo.
Ações e reações incisivas,
Mas o sonho, sobretudo.

Devaneios


Calo em mim as imagens devaneadas.
Sou um caracol no ato de sonhar.
Do frio, guardo as ilusões talhadas
Com o calor da certeza que esperar

É guardar em concha o ato de sonhar.
Então, eu bordo histórias enfeitadas,
Dentro do claustro, para só revelar
Ao meu coração, que cria delicadas

Narrativas de fatos e lugarejos...
Coisas que guardo pra compor trajetórias
As quais não passarão de tolos desejos.

E os meus mitos a dor ultrapassam,
Pois que o coração é terra de memórias,
Principalmente, às coisas que não se passam.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

(Des)fazendo


A velha ação do vento
Deixar-lhe-á destruída,
Como se ele, todo o tempo,
Buscasse uma saída
Para removê-la.
Como se mal a ele fizesse
Vê-la em pé, bem erguida,
E seu movimento lhe desse
Tanta satisfação,
Que a sua meta fosse
Vê-la todinha ao chão
Desforme, desfeita, diluída..
Mas assim como lhe desfará,
Ele, o vento, será capaz
De formar, sem se dar conta,
Outra duna e deixar pronta
Rápido, assim num "zás-trás".

Sina


Eu não a acho, se a procuro.
Eu não a encontro, se a busco.
Só oportunamente a encontro,
De modo inesperado, brusco.

Não importa se é escuro ou claro;
Se há treva ou clarão do dia.
Mesmo que seja difícil, raro,
Tudo se dará sem ousadia

No exato instante em que traçado
O meu enredo, a minha sina,
Acontece o que é planejado.
E de nada vale ser peregrina,

Buscando assim novo norte,
Se a força da minha trajetória
Sobrepõe-se à escapatória
Que eu arrisco da minha sorte.

Beijo




Na tua face tão linda.
Nestes teus olhos acesos.
Neste semblante, ainda
Que carregue tantos pesos,

Vejo ternura infinda.
Desejo cobrir de beijos
A tua face cansada,
Para acalmar meu desejo

E tua alma alquebrada.
Por enquanto, um bocejo
É-me o único ensejo,

Porque ao dormir é finda
A angústia do meu pejo,
De finalmente um beijo


Dar em tua face linda.

Enternecimento


Aquilo que me faz banhar os olhos
Está longe de ser algo banal.
Pode estar na lembrança de espólios
Ou no balançar do canavial.

Pode vir da pluma de um pavão.
Ou ainda de outro tipo de pena.
Ou pode estar no espaço do vão
Que há entre uma e outra cena.

Ou na mensagem que outros olhos
Passam, mesmo que não se deem conta.
Que ferem como se fossem abrolhos
Espinhando-nos com a sua ponta.

Pode estar na calma das pessoas rudes,
Que mesmo diante dos embates da vida,
Estão repletas de solicitudes,
Deixando qualquer alma comovida.

Aquilo que me faz banhar os olhos
Está muito além do que é visível.
Ultrapassa o limite do plausível,
Pois está submerso em meus refolhos.

Você


Eis você, todo... completo de sentimentos.
Você, que não é fidalgo,
Mas que de príncipe tem algo.
Você, que lê os pensamentos.
Você, que se faz tão presente na ausência...
Tão cheio de candura e eloquência...
Que honra qualquer compromisso
E, que além disso,
Tem bondade inata.
Você que faz serenata...
Você, sábio e cavalheiro,
Que sorri o tempo inteiro.
Você, que mora num livro ilustrado.
Você, sapo que vira príncipe encantado.

Minha paráfrase sobre este poema de Fábio Granville:






Comichão

Poesia comicha
Estrebucha
Puxa e repuxa
Atiça e sacode
Ziriguidum!
É vício
Fogo de artifício
Que Explode!
BUUUUUMMMM!!

Inquietação

A poesia pulsa:
Agita-se,
Até que a alma a expulsa.
Ela nos inquieta
E nos incita; ela nos impulsiona.
É assim que funciona.
A poesia tem um jeito:
Deixa-nos dependente;
Bate dentro do peito
Da gente
E finalmente
Eclode
.

Parataxe


Azul do céu, azul do mar.
Olhar, perceber contemplar.
Sonhar, ter, concretizar.
Estrela cadente, estrela do mar.
Proa, mastro, cabine.
Mar espelho, mar vitrine.
Vento, chuva, onda.
Mira, radar, sonda.
Timão, mirante.
Capitão, aspirante.
Bússola, astrolábio.
Mau tempo, homem sábio.
Tempestade, sorte.
Cruzeiro do Sul, Estrela do Norte.
Tubarão, baleia.
Tritão, sereia.
Tormenta, calmaria.
Navegação, pescaria.

Escorriam água e sal pelas narinas,
E como sem regaço nada se alivia,
Inquieta estava como a cotovia,

Que canta e voa simultaneamente.
Chorava e caminhava com maestria,
Enquanto vertia, involuntariamente,
O pranto que antes a consumia.

E era um poço sem fim, um abismo
As comportas de sua lástima,
E romperam-se de forma bombástica,
Pois já não era pranto, mas cataclismo!


O Sol e os Vitrais


Cores frias que banham a atmosfera
Beijam a luz do dia, e em espirais,
Vestem de tons suaves todos os vitrais
Da porta de entrada, onde quem espera

Contempla os reflexos que um raio gera,
Sozinho, sobre os vidros que ornam os umbrais,
Imaginando que haveria por detrás
Dos reflexos de cores uma primavera

Repleta de todas as espécies de flores,
De passarinhos, de plantas e borboletas,
Em diversas, cores assim como as paletas.

Esperar, assim, em companhia das cores,
Transformava a demora em horas perfeitas,
Tirava da espera os seus dissabores.

Como Pedra Furta-Cor



É do ser humano o estado de ser emocionalmente ímpar e ao mesmo tempo plural. O ser humano é assim como uma pedra furta-cor. Se algo lhe impressiona positivamente, sua cor pode ser verde, tranquila... ou vermelha, bem quente. Pode ainda ser branca, pacífica, tal como certas pedras, que pela influência da luz, não têm cor definida. E nesse "lusco-fusco" o homem se faz arco-íris. Um arco-íris de sentimentos e sensações.

Dizer que alguém é mau ou bom, triste ou alegre, zangado ou calmo (salvo casos particulares), pode ser um grande equívoco, já que o ser humano, em geral, tem a característica de mudar, de se influenciar pelas situações do dia a dia, tendo, assim, manifestações diversas. O que faz dele uma verdadeira pedra furta-cor.

Aprendi com experiências próprias ou mesmo através de observações ou de relatos que o ser humano tem sempre os dois lados: o mau e o bom. Que uma pessoa aparentemente ruim guarda dentro de si, muitas vezes, bondade maior do que aquela que exala benevolência em seu semblante. Essa descoberta me levou a ter tanto agradáveis surpresas como grandes decepções.

Com essa experiência na bagagem, agora, consigo perdoar com mais facilidade certas atitudes, bem como ver alguém além da imagem que revela, por exemplo, com suas expressões faciais ou seus trejeitos, ou mesmo com alguns gestos com os quais antes eu costumava "constatar" que uma pessoa era "chata" ou "legal".

Então, volto ao passado e lembro-me de algumas professoras colegas de trabalho mais velhas, portanto, já meio rabugentas, das quais sempre me aproximava até mais do que das professoras de minha idade, meio a título de estabelecer a política da boa vizinhança, por assim dizer. E me percebo um tanto saudosa daquelas, vendo, agora, em suas atitudes anteriores uma boa dose de cuidado maternal, o que seguramente, envolviam conselhos, sermões e críticas.

Percebo nessas lembranças os bons momentos que com tais colegas tive e revejo cenas que comportam gargalhadas, troca de experiências e amizade. Por que não dizer amizade? Logo me reporto à ideia da pedra furta-cor, reafirmando-a. Dessa forma, posso retirar da "lista-negra" as pessoas enfezadas, rabugentas, exigentes, críticas e por aí vai... Porque hoje vejo que naqueles momentos de suas vidas elas, na condição de pedras furta-cores, exibiam a cor propícia, segundo o que a ocasião lhes suscitava, visto que as pessoas não sentem nem se manifestam obrigatoriamente da mesma forma.

Toda essa reflexão me faz pensar também em mim como pedra furta-cor, assim como na maneira como reajo diante da vida e de tudo o que ela apresenta para mim e para todos. Então, eu me vejo na mesma condição em que eu via certas pessoas e, inevitavelmente, também me vejo passível de "julgamento" e, portanto, também sujeita a equívocos. Nesse pormenor, eu menciono o ensinamento popular: não julgue pela aparência. E isso digo tanto aos outros como a mim mesma.

Por essas e por outras, vejo que tudo na vida é sempre uma questão de ótica e que a mudança da ótica é uma questão de tempo. Vejo que muita da aprendizagem que temos na vida decorre das experiências do cotidiano, das relações que temos com as pessoas, sejam essas coletivas ou individuais. Vejo ainda que essas experiências vão sendo armazenadas dentro de nós automaticamente e que, apenas num dado momento, naquele em que nos há um estalo, fazemos uso delas, como de um arquivo que baixamos o qual um dia resolvemos abrir para conferir sua utilidade.

Dessa maneira, a vida fica indubitavelmente mais leve, pois passamos a nos defender menos, a evitar o rigor da crítica destrutiva, que quase sempre flui dos nossos mecanismos de defesa, motivados, na maioria das vezes, mais pela nossa autocrítica do que pela crítica do outro. Sendo assim, ver as pessoas sob a ótica da pedra furta-cor é bem mais bonito, e um tanto ainda mais agradável, vê-las como arco-íris, porque isso torna a vida, sem dúvida, mais alegre e, consequentemente, melhor.